Parte 2
Havia pensado em tudo. Durante nove anos trabalhara na Overnet. Fora uma longa escalada. Alexander Toombs, vulgo Zero, conseguiu entrar na empresa aos vinte e um anos, após realizar uma série de testes e ser aprovado em todos com louvor. Entrou em uma época em que a Overnet aceitava pessoas sem indicação, apenas demonstrando aptidão em uma exaustiva seqüência de testes. A empresa precisava de gênios, de pessoas capazes de ampliar os acessos à internet, de torná-la mais rápida, mais ampla e funcional. Era o nascimento da Hypernet.
Alexander recriou alguns dos principais backbones de acesso e reestruturou toda a sua história nos arquivos. Ninguém jamais saberia de sua origem cigana.
Enquanto os anos passaram, Zero foi se valendo de seus postos para adquirir informações e desviar recursos para criar um verdadeiro laboratório em seu apartamento.
Quando surgiu a tecnologia de neuroimplante, Toombs convenceu seus superiores de que ele seria uma excelente escolha para receber o chip de conexão Bluetooth. Como ele seria quase um backbone, porém receptivo, haveria muito mais eficiência nas pesquisas.
Agora, de posse dos nanotechs, o último estágio de sua busca aproxima-se do fim. Uma viagem de negócios falsamente planejada permitirá uma janela de três dias nos quais ele poderá realizar sua experiência. Em três dias, Zero pretende encontrar o ponto-cego, a zona fantasma, que subjaz a toda rede, descobrir o que há lá, e retornar para o seu corpo.
No entanto, há cerca de vinte minutos ele encontra-se inerte, pensativo e melancólico diante de todos os instrumentos. Ele tomou o frasco nas mãos. Um olhar soturno contemplou o líquido prateado no interior do invólucro hermeticamente selado. Havia algo de inquietante naquilo. Bilhões de nanorrobôs olhavam para ele. “Quando se olha para o abismo – pensou – o abismo te olha de volta!”
Estava olhando para bilhões de olhos que o olhavam de volta, sentindo uma vibração que parecia uma estática, um tipo de não-riso perturbador. E, em pouco tempo, todos eles estariam dentro de seu cérebro.
***
Zed era um gênio. Nascido em meio aos cyber-magiares, cresceu em um misto de cultura ancestral mesclada a uma obsessão por tecnologia. Qualquer tecnologia. Entre os ciganos, haviam ciborgues de todos os tipos, com uma mistura quase obscena de aparatos de todas as épocas, exoticamente combinando e funcionando.
Quando o Setor de Mercados ficou pronto, foi declarado como marginal qualquer atividade comercial que não fosse mediada por eles. No mesmo período, foi aprovada a liminar que tornava proibido o uso de qualquer tecnologia não catalogada pela Neotech Co.
Assim, os Cyber-Magiares, que já não eram bem-vindos na Cidade Vertical por seu nomadismo, se tornaram duplamente marginais, pois eram mercadores independentes e toda sua tecnologia era adulterada e não corporativa.
Foi nesse período, quando Zed tinha dezessete anos, que Zero ingressou na Overnet. Só posteriormente haveria uma perseguição mais ostensiva aos ciganos, o que permitiu a entrada de Zero no setor mainstream. Os dois irmão trabalharam juntos na criação do Vault. Com acesso irrestrito à internet, Zero passava as freqüências dos satélites de varredura do Grande Olho, a polícia da Cidade Vertical, enquanto Zed desenvolvia o sistema de embaralhamento. O software necessário foi todo criado por Zed, enquanto os sensores de desvio foram desenvolvidos por Mac, o irlandês paranóico.
Sistemas de ocultamento se tornariam a especialidade de Zed. Ele poderia circular pelo Vault o dia todo sem que ninguém o visse. Um verdadeiro camaleão que se tornaria vital para as atividades dos cyber-magiares após as proibições corporativas. Porém, desde o incidente com os nanotechs, o rosto de Zed se tornou conhecido pelo Grande Olho. Por isso, foi somente graças a seus talentos em programas de ocultamento e indutores de imagem que Zed conseguira chegar discretamente até o setor residencial. O Grande Olho estava em todos os lugares. Satélites, câmeras, olheiros e um banco de dados complexo faziam da Cidade Vertical uma enorme torre vigiada.
O Setor Residencial era obviamente vigiado. Mas a Ala 11, a parte residencial exclusiva para os altos funcionários corporativos, como Alexander, era ainda mais vigiado.
Nas dez alas que antecederam a esta, Zed se valeu de um indutor de imagens. Esse recurso consumia menos de seus sistemas, pois não precisava esconder seu corpo , apenas aplicar sobre ele uma outra forma. Mas as câmeras flutuantes e os sensores múltiplos não permitiriam o uso do indutor de imagens. Cada pessoa que entra na Ala 11 é abordada pelas câmeras flutuantes e por uma série de sensores móveis que buscam identificar o visitante e checar sua veracidade. Se fizessem isso, descobririam o engodo. Na Ala 11, só mesmo sendo invisível.
A travessia até o apartamento de Zero não fora longa, mas foi lenta e angustiante. Mesmo oculto Zed tinha de evitar esbarrar em qualquer coisa. Teve de tirar os sapatos e andar descalço para que os sons dos passos não denunciassem sua presença. Ao chegar ao prédio, teve de aguardar vinte minutos até que um carro se aproximasse da garagem para entrar sorrateiro atrás. E, por fim, teve de subir dez lances de escada de serviço para não ter de usar o elevador e ser detectado pelas câmeras.
Ao chegar no apartamento do irmão, já se havia esgotado sua paciência. E ainda havia a possibilidade de ter chegado muito tarde.
Bateu na porta com força, impaciente, rogando que o irmão não tivesse começado a experiência.
***
Olhava para o pequeno frasco quando uma batida nervosa tirou sua concentração. Com um sorriso malicioso, recolocou o frasco no lugar e dirigiu-se até a porta. Ao abrir, sorriu para o corredor vazio e tremeluzente, dizendo:
“Você demorou...”
Fechou a porta atrás de si e viu Zed se materializando e sentado em uma poltrona:
“Água! Subir dez lances de escada cansa, sabia?”
“Não” – disse Zero, zombando – “Eu geralmente uso o elevador”.
Enquanto Zero pegava água em um frigobar na cozinha, Zed se recompunha, olhando irritado para irmão:
“Você Sabia que eu viria, não é?”
Zero entregou o copo com água para Zed, que bebeu compulsivamente.
“Estava contando com isso. O ponto-cego sempre te intrigou, embora você não reconhecesse do mesmo modo que eu. Não poderia deixar que eu descobrisse sozinho, e nem eu queria fazer isso sem você como testemunha... e auxiliar”.
“Não, Zero. Não foi pra isso que eu vim. Não há nada para descobrir. A Hypernet não é mais do que um fluxo de dados, de informações que nós colocamos lá”.
“Exato, Zed” – Zero colocava o copo na pia da cozinha. Voltou e sentou em outra poltrona – “Exato! Quando a Internet foi criada, em 1969, no auge da Guerra Fria, com o nome ARPANET, o objetivo era criar uma rede de comunicações onde cada computador, mesmo os backbones, as grandes espinhas dorsais do sistema, não eram mais do que um no que, se fosse destruído, não afetaria a Rede. A idéia era criar um campo de comunicação que permaneceria ativo mesmo após um devastador ataque nuclear. Nossas máquinas dão acesso à rede. Nós a enchemos de dados, criamos um fluxo de informações que, como você disse, colocamos lá. Mas eu te pergunto: onde é esse lá? Se cada computador, cada provedor de acesso, cada mainframe é apenas um nó que, se destruído, não afeta a Rede, então eu pergunto, o que é a Rede? Os dados pertencem a nós, e os terminais nos permitem acessar os dados que colocamos lá e também a inserir mais dados. Mas onde fica esse espaço onde colocamos os dados? Onde está a estrada pela qual trafegam?”
Zed olhava para o irmão, que continuava falando calmamente. Já haviam falado sobre isso várias vezes, e ele já sabia onde iam chegar, mas agora, mais do que nunca, temia a conclusão.
“A Rede, Zed, não são os computadores, não são os dados e informações que trafegam continuamente. Há uma terceira coisa, que nós não criamos, que já existia antes da ARPANET ser criada, e sem o qual nem seria possível criá-la”.
“Uma outra dimensão, você vai dizer!” – atalhou Zed, já impaciente – “Você já disse isso antes, e é só uma teoria. Não há provas. Nem uma evidência sequer...”
“Errado! Venha comigo!” – Zero levantou de sua poltrona e levou Zed até um conjunto de monitores. Zed olhou para a tela. Olhando-se para os cinco monitores, o que se via era um fluxo interminável de zeros e uns.
“Zero” – disse Zed – “são códigos binários. Fluxos de dados. Que evidências há nisso?”
Zero olhou para o irmão: “Eu vou te mostrar uma evidência. Está vendo esse zero tatuado em minha testa? Ele não está aí à toa. É zero por causa de um ponto na rede, um ponto-cego, uma nulidade real por trás de cada dado posto na rede. Anos atrás, eu estava seguindo uma informação pela net. Acompanhava cada terminal onde ela passava. De repente, ela sumiu. O código desapareceu, mas deixou algo como uma sombra, um tremular”.
“Espere aí!” – olhou-o Zed – “Esse tremular foi como o efeito provocado por nosso ocultamento? Como o Vault?”
“Exato! Se uma pessoa entrar no Vault, ela irá sumir. Mas uma observação atenta como a nossa, Zed, é capaz de perceber que ela ainda está lá, mas diferente. Está lá como um ponto-cego, como um zero, mas não como um nada!”
“Bem, e o que aconteceu depois?” – indagou Zed, já cortando um possível discurso científico do irmão.
“Depois? Eu fiquei aturdido com aquilo. Mas segui o fantasma da informação o quanto pude e, súbito, ela apareceu novamente. E continuou seguindo sua rota. Eu percebi, depois disso, que qualquer dado na rede, quando acompanhado em sua rota, passa por uma zona fantasma e some, reaparecendo depois. Mas a coisa só pôde ficar mais clara quando eu implantei o chip de acesso contínuo. Com ele eu pude fazer um mapeamento de uma parcela ínfima da rede, por onde circulam dados por 24 horas. O mapeamento está nesses cinco terminais. Quer ver o ponto-cego?”
“Você está dizendo que passa 24 horas por dia verificando todas as informações que passam em um certo ponto da rede? E, quando chega nesse ponto...”
“Todas elas somem!” – atalhou Zero – “Olhando para as telas, tudo o que você vê são dados convertidos em pacotes binários. Mas isso é questão de perspectiva. Quando eu me distancio, apreendendo um fluxo mais amplo, veja o que acontece...”
Zed olhava para as telas. Via ali a herança estilística retro dos cyber-magiares. Monitores monocromáticos que revelavam fluxos de códigos binários verdes fluorescentes em um fundo preto. A princípio via os números descendo na tela ordenadamente em fileiras de seis dígitos. Pouco a pouco, os números foram ficando menores, na medida em que mais fileiras preenchiam os monitores. Logo, os números se converteram em linhas verdes que subiam como ondas pelas telas. Enfim, nem mesmo linhas, mas apenas uma faixa maciça esverdeada corria pela tela.
Então, ele viu. Quando tudo o que se podia ver era uma luminescência verde estampada em seus rostos, ele viu, atônito, uma massa de espaço preto surgir como uma cratera, um buraco negro impenetrável em seu negrume, uma ilha que recebe os fluxos de dados como ondas. E esses dados desapareciam sempre que penetravam naquela massa. Então, os monitores voltaram a apresentar o fluxo contínuo de números novamente.
“Não pode ser...” – murmurou Zed.
“Acredita em mim agora?”
***
“Muito bem! O que você pretende fazer? Qual será o procedimento? – indagou Zed.
Zero estava esterilizando uma seringa prateada. Vestia uma camisa branca sem gravata e uma calça social preta com as mangas dobradas. Enquanto preparava os instrumentos, disse:
“Aquilo que você viu é o máximo que eu pude mapear. São muitas informações para o chip de conexão. A idéia é você inserir os nanotechs a partir do chip. Eu alterei a programação deles e os nanos estarão prontos para se fundirem ao meu neocórtex cerebral, preservar minha mente em pacotes de dados controlados pela minha vontade. Então, utilizarei a conexão do chip Blue Tooth para me inserir na rede. A partir desse ponto, você terá de me orientar, Zed. Uma vez lá dentro, posso me perder no fluxo”.
Não havia mais o que dizer. Os procedimentos foram seguidos, e o momento chegara. Zero sentou-se na cadeira em frente ao terminal central. Uma série de trodos foram fixados em seu corpo para monitorar seu organismo. Todas as medições eram indicadas no terminal. Zed tomou a seringa e introduziu o frasco com os nanotechs. Ouviu um leve ruído de pressão e soube que os nanos estavam prontos para a infusão. Aproximou-se de Zero, seringa em punho:
“Feche os olhos, Zero...”

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