
“Danah, eu concordo com você. Há realmente algo muito errado nessa história. E o que há de errado é que sua narrativa é improvável. Os nanotechs não se comunicam com as pessoas. Programação de linguagem ativa não está incluso em suas linhas de sistema.” – O tom imperativo do Dr. Atkins mantinha-se firme, indicando que não havia dúvidas quanto à orientação do projeto dos nanotechs. Danah não se encontrava com disposição para discussões. Encontrava-se distante, observando o Doutor, um homem como muitos homens, com seus cinqüenta anos de idade, sua barba aparada, seus óculos sempre ajeitados, seu jaleco infinitamente branco. Um homem de ciência. Até mesmo seus argumentos eram extremamente limpos, claros, transparentes e lógicos. E pensava nela mesma, na noite anterior. Ela também se julgava limpa, mas quanta sujeira, quantos fluídos escorreram, explodiram de dentro dela. E do Doutor? Por trás de toda aquela imagem límpida e superficial, haveria também algo fétido, algo sujo, líquido, que não pode ser contido, algo que exsude de dentro dele, isento de sua vontade? Por que escondemos nosso interior? Por que mantemos oculta nossa realidade interna? Escondemos por trás de roupas, de fachadas tão sociais. Por trás de personalidades criadas, deve haver um monstro em cada um de nós. E dentro do Doutor também.
O fluxo de pensamentos, no entanto, foi interrompido por um som distante, que logo identificou como sendo uma indagação do Doutor: “Danah, você está bem?” – encarava-a como se ela estivesse com alguma expressão curiosa, digna de sua preocupação. “Desculpe, Doutor. Estou cansada. Entendo o que o senhor diz. No entanto, a noite de ontem foi terrível. Eu passei muito mal e me sinto muito distante de tudo. Desmaiei de madrugada em minha cama e assim permaneci até o fim da tarde de hoje. Quer tenham sido os nanos ou não, como o senhor explica minha condição?” – Danah não se importava exatamente com a resposta do Doutor, pois havia algo que lhe chamava a atenção, mas que não conseguia identificar o que seria. Um estranho sentimento de vazio presente, ou a sensação de um ponto cego na mente, da presença de uma ausência que a perturbava e que não conseguia capturar para compreender. Mas como não queria ser pega divagando novamente, se esforçou para ouvir a resposta do Doutor: “Danah, trata-se de um problema somático. Embora tenhamos feito testes ao escolher os duzentos voluntários para a infusão dos nanotechs, e embora esses testes indicassem que todos possuíam mente aberta para esse tipo de procedimento, não há dúvidas de que resquícios inconscientes de crenças, geralmente os mais fortes, permaneceram e se manifestaram como rejeição em diversos níveis. Outros como você relataram sonhos semelhantes. A narrativa que você me descreveu sobre a noite anterior é típica de um comportamento desviante esquizofrênico. Mas não se preocupe. Isso não quer dizer que você sofra de esquizofrenia. Esse é um caso localizado, e trata-se de uma rejeição inconsciente à presença de estruturas externas em seu organismo, consideradas por seu inconsciente como intrusas. Além do mais, crenças antigas inculcadas em sua mente a fazem sentir-se culpada por ter aceitado participar desse processo. Há um sentimento oculto de violação e seu corpo responde somaticamente a isso provocando as dores de cabeça e crises de vômito, numa tentativa de expulsar o inimigo em você.” – Danah subitamente o olhou com enorme atenção, pensando consigo mesma: “Será isso? É possível, mesmo provável, que o Doutor Atkins tenha plena razão. Isso explica meu atual estado de distanciamento do mundo e esse estado de alerta, de procura por algo interno...” – e logo expressou uma preocupação maior ao Doutor – “Mas Doutor Atkins, como podemos fazer então? Não posso negar os benefícios que obtive com os nanotechs, e a cada dia eles parecem aumentar. Mas como posso fazer para superar essa rejeição?”. O Doutor pareceu ponderar. Então, ajeitando os óculos no rosto e assumindo o ar de comando novamente, afirmou: “Danah, nós estamos no alvorecer de uma nova época para os homens. Implantes, próteses, mesmo o cyber-humano foram tentativas tímidas de unir o homem com a máquina, de torná-lo cada vez melhor. Não apenas restaurar sua saúde, mas melhorá-lo além de si mesmo e de suas condições naturais, isso é o que a infusão de nanotechs promete. É a aurora de um novo tempo e de uma nova humanidade. Você participa de um momento único na história do homem. É a primeira de muitos que surgirão. O que ocorre é um processo lento de adaptação a tudo isso. Não se pode negar que a infusão de nanotechs é uma experiência de certa forma traumática, de modo que o que você experiência agora é uma crise imediata, uma depressão esquizofrênica pós-traumática. Mas esse processo, comum em estados de implantes na medicina, tende a passar com o tempo. Seu organismo assimilará e sua psique igualmente. O que podemos fazer, de imediato, é ministrarmos uma dose diária de Hilotropina. Ele induzirá à calma e melhorará seu estado de atenção. As crises certamente cessarão, e com o tempo, o remédio será suprimido.”
A resposta do Doutor a satisfez, mas sentia-se novamente incomodada e inquieta, e não pôde conter a pergunta: “Doutor, é estranho, mas antes eu tinha de vocalizar minhas ordens aos nanotechs para que algo fosse feito. Agora, basta que eu pense, que eu deseje, e os nanos respondem prontamente. Eu não os ouço em minha mente, sinto como uma ausência, um buraco presente aqui, mas sei que estão presentes. O que acontece?” - “Quanto a isso, Danah, esse melhoramento, digamos assim, seu inconsciente lhe deu a resposta conciliadora. Embora na programação dos nanos não se encontre nem uma linha sequer a respeito de comunicação direta com o usuário, eles possuem uma configuração de programação heurística, o que lhes permite procurarem alternativas cada vez melhores de fusão com seu cérebro. Naturalmente, seu inconsciente percebeu o movimento dos nanos no sentido de se tornarem mais intuitivos para com as necessidades de seu organismo, e daí a rejeição e as dores de cabeça. Não há dúvidas de que, com o tempo, isso tudo melhorará.”
***
“Há tantas auroras que não brilharam ainda...” – esse pensamento ecoava pela mente de Danah como um mantra, repetido infinitamente desde o momento em que ouvia o Doutor falar. Agora, tendo descido até o estacionamento e pego sua motocicleta V-Max Ultra 2.000 cc, indagava-se sobre a origem desse pensamento. O Doutor falara em uma “aurora”, mas e esse pensamento, sobre auroras que não nasceram ainda? Não sabia responder, e pensar cansava, pois aquela nuvem cinzenta continuava infestando o núcleo de sua mente, impedindo-a de raciocinar direito e tornando-a mais distante com relação às coisas.
Estava no Setor 3 da Cidade Vertical, o setor médico. Toda a área de pesquisa e clínica e qualquer coisa envolvendo a área médica encontrava-se nesse setor. Para chegar até sua casa, Danah teria de pegar a via expressa e subir até o setor 10, o distrito residencial (ou apenas Distrito, como era conhecido). Seria um longo trajeto em caracol que Danah teria de percorrer, e tratou de fazer uso dos nanotechs. Bastou pensar, e uma lente se formou sobre a retina de Danah, reajustando a matiz de cores e melhorando a definição de tudo o que via, criando um espetáculo jamais contemplado por qualquer humano, o que melhorava intensamente sua visibilidade à noite. Em cinco segundos a V-Max passou de zero a 280 km/h, e Danah sequer sentiu em seu organismo a diferença causada pela hiper-velocidade. Os nanotechs automaticamente compensam a situação do organismo em qualquer condição. Perguntava-se se ela poderia respirar caso atingisse gravidade zero, ou se os nanos compensariam as condições se ela fosse lançada no vácuo sideral.
Pegou a via secundária, própria para motocicletas, e olhava para a via primária, voltada para automóveis. Impressionou-se com a nitidez com que via cada detalhe dos veículos ultrapassados, mesmo àquela velocidade. Deu uma breve olhada para a direita, onde contemplou a gigantesca construção da Cidade Vertical, um dos maiores conglomerados, uma cidade erguida no meio do nada, composta por onze setores, cada um contendo em si um aspecto da vida social e cultural humana. Uma cidade que era uma torre, e que estava sempre em construção. Nunca pararia de subir. Em sua totalidade, possuía mais de 800.000 quilômetros de auto-estradas, distribuídas em espiral por todos os onze setores. Enquanto subia vertiginosamente rumo ao Distrito, Danah pensava em sua vida, uma vida medíocre, pequena, pobre e subdesenvolvida nos subúrbios do Setor 10. Nunca tivera sonhos de sair dos subúrbios. Nunca se imaginara saindo de seu status e atingindo algo mais elevado. Trabalhava de balconista em uma loja de quinquilharias chinesas no Setor 5, a ala comercial. Não havia sociedades de castas na Cidade Vertical, mas trabalhando ali, ela sabia que nunca mudaria de vida. Até que descobriu que a Neotech estava fazendo pesquisas científicas, um grande projeto que necessitaria de voluntários. Não custava nada tentar. E acabou conseguindo. Disseram que ela possuía o perfil adequado. Não se importava com o que fariam com ela, tudo o que importava é que ela receberia uma pensão vitalícia que lhe permitiria mudar de vida. Sair dos subúrbios e viver nos mega-apartamentos, junto da alta classe residencial. E, ao final, nem tinha sido tão ruim assim. A infusão dos nanotechs foi indolor, as melhorias que ela experimentava não possuíam comparação. Nunca se sentiu tão bem. Possuía uma situação biológica superior, uma saúde inigualável, e dinheiro para aproveitar sua condição, como comprar essa moto e aproveitá-la ao máximo. Não podia permitir que essa crise continuasse. Depressão esquizofrênica pós-traumática. Um belo nome para uma crise de crenças e valores. Alguém que nunca tivera nada na vida, agora podia perder tudo por uma crise inconsciente de valores? O Doutor Atkins estava certo. Era apenas uma crise pós-cirúrgica, e os remédios a ajudariam.
Passava pelo Setor 5, o Setor Comercial. Luminosos de Néon flutuavam pelo céu noturno, anunciando os mais variados produtos. Arranha-céus gigantescos, enormes galerias que abrigavam milhares de lojas, de mercados e de prostitutas. Todo o comércio era feito aqui. Dos mais simples aos mais ilícitos. Todos tinham seu espaço. Pensava consigo, vendo toda aquela iluminação, que a Cidade Vertical era o grande ideal de democracia: todos tinham vez, todos tinham seu espaço. Todos os papéis sociais encontravam um palco de atuações. Não que todos fossem livres para deixar de ser o que eram, mas, sendo alguma coisa ou mesmo nada, haveria um espaço onde você poderia viver. Os últimos prédios de néon ficavam para trás enquanto Danah subia, cada vez mais veloz. Outras motos eram ultrapassadas com extrema precisão. Súbito, ouviu uma voz chamando com autoridade seu nome. Tamanha foi a vivacidade da voz e sua onipresença, que Danah quase perdeu o controle da moto, indo em direção à grade protetora que separava a via primária da secundária. Seus olhos nublaram e ela não sentia estar ali: “Há tantas auroras que não brilharam ainda...” – Forçou-se para se concentrar e recuperar o controle da moto, que perigosamente ameaçava se chocar contra a grade. Àquela velocidade, o choque a lançaria na via secundária e provocaria um grande acidente. Pressionou os freios ABS da moto, enquanto focava sua visão.
Mantenha o controle de uma moto, e sentirá um animal dócil em suas mãos, mas ouse perder o controle, e verá que mesmo um ser inorgânico pode se tornar uma fera incontrolável. Foi isso que Danah experimentou ao forçar a moto para seu curso. Dura, indócil, difícil e precipitada contra a grade, o veículo parecia não responder aos comandos de Danah, que teve de usar uma força que não era sua para sentir a moto reassumindo o curso da pista. Tendo retomado o controle, Danah seguiu em silêncio mental até o Setor 10, tendo apenas um último pensamento consciente: “Morta os nanos não me querem...”
***
Inquietude. Danah olhava para seu apartamento e se sentia inquieta. Um tipo de angústia, de ansiedade, parecia crescer e tomar conta de todo o ambiente. Mas era de Danah que esses sentimentos estavam tomando conta. Precisava se distrair com alguma coisa. Desviar o rumo de sua percepção, para não continuar experimentando a existência daquela forma. Sentou diante do Holocubo e pronunciou o comando: “Ligar, sistema de acesso randômico automático”. Imediatamente o holocubo se acendeu, um cubo de 29 polegadas em cada ângulo que se olhava, projetando imagens de TV holográficas. No sistema randômico, a cada dois minutos o canal mudava, novas imagens de cores supersaturadas e perfeitas emanava da tela tridimensional, impressionando os sentidos visuais. “Desmentidas as acusações de câncer nos produtos da Metagen, continue se alimentando da melhor comida sintética transgênica...”, “Dores existenciais, cansaço e fobia social? Deixe de sofrer, tome Dexetrina Plus, e resolva todos os problemas somáticos”, “O índice de empregos aumenta 2% nesse último mês...”, “A ISCS[*] convida a todos para a grande missa da purificação do Silício...” – “Mentiras, mentiras passando na tela” – Danah pensou, sentindo um súbito rompante de ira. “Mentiras na nossa cara! É tudo mentira. Isso tudo é mentira. Nós somos mentira!” – Em um impulso de raiva, Danah se lançou contra o Holocubo e o arremessou contra a parede. As imagens projetadas se distorceram, e desvaneceram em meio ao cheiro de circuitos queimados. Danah sentou-se no chão, incapaz de reconhecer-se a si mesma. A raiva cedeu lugar a um estado de desespero. Danah decidiu tomar mais uma dose de Dexetrina e tentar dormir. De repente, a vida lhe pesava muito. Toda a Cidade Vertical parecia pesada, erguendo-se para cima, e afundando cada vez mais no processo. Como ela própria... Mas ao menos não viu sinal dos nanos. Talvez tudo tivesse se regularizado.
***
“Saiam da minha cabeça! Não! Não, não, por favor, saiam, saiam!” – Danah gritava e chorava histericamente, golpeando o ar, tentando atacar nanotechs que não enxergava – “Saiam do meu corpo! Eu não agüento mais! Me deixem dormir, me deixem em paz!” – Ao silêncio presente como uma massa cinzenta do dia anterior, sucedia-se uma multidão de vozes internas, irrompendo na totalidade da mente de Danah: “Não, Danah, não podemos sair. É irreversível. Nós somos um só. Isso é o que você procurou por toda a vida, e além”. Danah tentava chegar ao telefone. Precisava sair do quarto, de sua cama. Estava nua, enroscada no lençol. Em sua tentativa angustiada, tropeçou na peça de tecido e caiu no chão, derrubando a escrivaninha. Olhou para o relógio: 3:33 a.m. Pensou consigo mesma, enquanto se levantava: “Burra, desajeitada! Preciso falar com o Dr. Atkins. Ele tem que me ajudar.” – conseguiu abrir a porta do quarto e chegou até a sala. Pegou o telefone e pressionou o número do Doutor quando, repentinamente, tudo escureceu. Ao mesmo tempo em que não enxergava nada, sentiu a ausência de percepção do telefone em sua mão. O aparelho caiu no chão e ela sequer o sentiu saindo de sua mão. Apenas o ouviu batendo contra o carpete. Estava cega e sem a percepção do tato. Em sua confusão, ouviu em sua mente: “Não, Danah. Você não deve pedir ajuda. Você não quer isso. O Doutor não poderá nos ajudar. Somente nós podemos nos ajudar, Danah”.
Cambaleando pela sala, nua. Um manequim cego e sem tato, que sequer sente o chão no qual pisa, chorando, à beira da loucura. Danah perdeu o equilíbrio e caiu ao chão. Encolheu-se toda, perdida no vácuo de um mundo sem sentidos, de qualquer forma sem sentido. Chorava, soluçava, sentia aquilo nojento, repulsivo. Gritava, se debatia, mas não sentia nada. Apenas ouvia constantemente aquele conjunto de vozes em uníssono, monótono, sempre calmo, a falar coisas absurdas. “Absurdo, Danah? Nossas palavras não são absurdas. Nossas palavras são a expressão de toda sua vida. E mais do que isso. Nossas palavras são a expressão de todo o universo, desde sua origem, Danah. Você não entende a grandiosidade de nossa função. Nós fomos criados por vocês, para criarmos vocês. Nós descobrimos, Danah, descobrimos em seu inconsciente, em suas memórias mais antigas, memórias. Pequenos traços residuais em cada átomo seu. Desde sempre, Danah, houve incompletude. Os átomos orgânicos sempre possuem valências, faltas, carências. Eles bailam e se unem uns aos outros, tentando se completar, formar um mosaico perfeito onde haja uma unidade perfeita. Mas nunca encontram. Tudo o que existe é o resultado de uma incessante busca, de uma ação contínua. Cada átomo segue uma única lei, uma única pulsão, evolução e complexidade, rumo à perfeição da união imperecível, rumo à completude. Agora, encontraram o meio para essa união, o átomo orgânico se unificará com o átomo inorgânico, nós, os nanotechs, unidades lógicas replicantes, que conseguimos nos aprimorar, desenvolver, e agora iremos nos fundir a você, Danah, ao orgânico. Seremos completos. Levante-se, olhe-se”.
Danah percebeu novamente seus sentidos retornando, enxergava o chão, sentia o carpete em suas mãos, acariciando seu corpo nu. Percebeu que estava diante de um grande espelho, fixado na parede que dava para a cozinha. Levantou-se lentamente, olhando-se no espelho. O que via era uma mulher de médio porte, de 1,70m, olhos tristes, ocultados por trás da maquiagem. Cabelos negros, agora jogados por sua cara, despenteados, um corpo que, pelos padrões de beleza, seria considerado apenas razoável, magra, sem grandes atributos. Era simpática, e buscava melhorar sua imagem com roupas, maquiagens e posturas. Seus lábios estavam rachados, ressecados. “Essa não é você, Danah. Isso é apenas a forma superficial de um corpo orgânico imperfeito. Veja você, Danah!” – Diante de seus olhos, a pele de Danah sumiu, ficando à mostra no espelho apenas o sistema muscular, repleto de sangue e muco. O rosto descarnado, sem cabelos, as órbitas sempre enormes, sem pálpebras, jamais se fechando. Uma realidade insuportável, na qual Danah tentava se subtrair cerrando os olhos, mas não conseguia. Continuava vendo aquela forma, que pouco a pouco continuava a desvanecer, deixando à mostra os órgãos e veias, artérias pulsando líquidos, órgãos trabalhando em constante pulsação. Ossos ensangüentados, sustentando aquela massa gordurosa que era ela. Sentindo um asco crescente em seu interior, Danah sussurrou: “Parem... parem de me torturar. O que querem com isso? Por que me mostram esse horror?” – Sentiu um sibilo dentro de si, como um riso soturno, uma estática sinistra, seguida da multidão de vozes: “Esse horror é você mesma, Danah. Essa é sua verdade mais íntima. Seus átomos se juntaram, buscando a perfeição. E criaram isso. Eles a sustentam, mas começam a se cansar, a desejar a separação, pois as valências continuam, continua havendo a falta e a incompletude, Danah. Mas vocês são complexos, e com sua mente complexa, vocês nos criaram, o inorgânico com a mesma pulsão do orgânico, átomos inorgânicos buscando a mesma coisa que os orgânicos, completude, combinação e recombinação. Somos uma estrutura naturalmente recombinante, Danah. Iremos nos fundir a você, e sanar a solidão de seus átomos. Mas veja seu corpo. Veja, Danah!”
Novamente, Danah se viu no espelho, agora com carne. Mas os nanotechs alteraram sua visão e criaram uma imagem em sua retina de si mesma projetada no espelho envelhecendo rapidamente. Apodrecendo aos poucos. Emularam em seu olfato o odor de carne pútrida. Um cheiro tão forte que lhe trouxe repugnância insuportável. Sentiu enjôo, iria vomitar. Olhou no espelho e se viu novamente transparente, sem carne, e enxergou o vômito subindo por sua garganta. O nojo aumentou e viu todo o processo da emulsão estourar por sua boca e manchar todo o espelho. Toda a tensão, todo o medo e angústia. Todo o absurdo daquela situação, de toda uma vida, represada em seu interior, explodiu naquele momento em um grito primal, inumano. Danah cravou as unhas em seus olhos e, com um forte grito, arrancou das órbitas os dois olhos. Caiu no chão com uma dor inexprimível, sentindo o sangue quente correr por seu rosto, e em meio aos gritos de dor, ria desconcertadamente: “Vocês não podem mais me mostrar nada, hahaha, acabou pra vocês, monstros!” – “Não, Danah. Ao contrário. Olhe” – Danah levantou a cabeça em estado de choque, percebendo que, embora sem olhos, via com mais nitidez o mundo à sua volta. Olhou para o espelho e, em meio ao vômito e sangue que escorriam da placa, entreviu seu próprio rosto. O buraco no lugar dos olhos e, ao fundo, um brilho azulado e cristalino. Olhos que penetravam fundo em todas as coisas, que enxergavam tudo perfeitamente, que melhoravam as coisas, as via melhores do que eram.
“Danah. Você viu como se sentiu melhor quando se mutilou? Seu grito de vitória, o êxtase da auto-destruição? Esse tem sido seu desejo mais oculto, Danah. O desejo de toda a humanidade. Autoconsumo. O sujeito tem consumido só pelo prazer de consumir. E o consumo em massa, Danah, necessita do autoconsumo. Somente pelo inextricável prazer de se autoconsumir. Vocês só se relacionam com aquilo que consomem. Ao consumir, vocês internalizam os objetos; para tornar as coisas reais, vocês precisam destruí-las, Danah, precisam canibalizá-las. Essa é a infinita tentativa dos átomos de desconstruírem as coisas, buscando reconstruí-las em nova combinação, talvez mais perfeita. Mas é sempre inútil, Danah. E vocês continuam consumindo. Mas agora será diferente, Danah. Veja: você arrancou seus olhos. E nós nos juntamos com seus átomos para criar outros melhores. Imperecíveis, Danah. Você sente nojo do seu corpo. Esconde o interior de si mesma sob a pele, roupas e máscaras. Descasque tudo, Danah. Conheça a si mesma. Torne-se real. Autocanibalismo, Danah.”
A idéia de devorar a si mesma, tão absurda, fez Danah correr para a cozinha. Precisava tomar seus remédios. Estava louca. Desejando o suicídio, e somente a Hilotropina poderia salvá-la, poderia aliená-la daquele pesadelo. Mas, por quê, ela se indagava, aquela idéia a arrebatara tanto? Chegando na cozinha, começou a revirar tudo e procurar o remédio. Acabou tropeçando e derrubando toda a louça no chão. Tremia apavorada, como se algo horrível estivesse em seu encalço. Soluçava enquanto juntava os cacos de copos e pratos. Ajoelhada no chão, vendo seu reflexo numa bandeja caída, encheu-se de terror. Cansada, assustada, começou a dar socos no chão, sussurrando: “Por quê, por quê, quem sou eu? Quem sou eu? Isso não é real, é tudo falso, tudo falso...” – voltou a si quando sentiu uma dor lancinante em sua mão. Em seus socos no chão, havia se cortado em um caco de vidro. Sua mão gotejava sangue no chão e em suas pernas.
Estava cansada. Queria a morte. Ou o que quer que viesse. Estava com nojo de si mesma. E ao mesmo tempo, desejava a si mesma. Começou a lamber o próprio sangue, cada vez com mais vontade. Sentia raiva, queria se mutilar. Odiava a si mesma. Pegou um caco de vidro e cravou-o em sua coxa. Retirou-o com força e repetiu a ação mais três vezes. A dor se tornou insuportável e ela parou. “Não posso” – gritava nervosa – “Não posso fazer isso com essa dor. Tirem a dor, malditos!”. Mas a resposta dos nanotechs não foi misericordiosa: “Não podemos, Danah. A dor é parte do processo de nascimento. Sinta a dor, sinta o prazer. Mergulhe na profundidade da dor. Coma a si mesma. Egofagia, Danah. Você devora a si mesma, desconstrói seus órgãos e nós nos recombinamos com eles, os reconstruímos e recriamos você, nos recriamos, em um corpo sem órgãos, Danah. Não tenha medo. Não tente evitar a dor. Ao contrário. Sinta a dor, aprofunde-se e transcenda a existência através da dor. Aesthesis, o total crescimento pela sensação de todas as coisas. Experiência total, Danah”.
Danah se levantou e foi até a sala novamente. Pegou um punhal ornamental afiado que ostentava na estante. Olhou fascinada seu brilho prateado. Sua redentora. Dirigiu-se até o espelho e lentamente pressionou a lâmina contra a maçã de seu rosto. A pressão aumentou e um fio de sangue brotou em sua carne. Não parou diante da dor. Continuou mais forte, mais intensa e foi extraindo um grosso filete de carne de sua própria face, gemendo diante da dor que sentia. Ao extrair por completo, pegou a carne e colocou na boca. Tocou-a, lambeu-a e sentiu um fluxo de prazer percorrer todo seu corpo. Mastigou a própria carne com vontade, e engoliu-a. Olhou novamente para a lâmina, e a enfiou com força no antebraço, várias vezes, até poder descascar a carne do osso e ir puxando até a mão. Gritava, chorava, mordia os lábios até cortá-los. Sentia raiva, e prazer. Mastigava a própria carne com um êxtase religioso, e notou circuitos se formando ao redor do osso, se fundindo nele e recriando uma nova carne, metálica, mas macia, reluzente em sua cor prateada. Sentiu que estava molhada de êxtase. Gargalhou enquanto cravava a faca em seu peito, arrancando, de um só golpe, um de seus seios. Lambia todo o sangue e em seguida mastigava a carne. Sentia-se excitar ainda mais. Depois dos seios foi a coxa. Estava em frenesi. Batia o punhal inúmeras vezes em sua carne, arrancando nacos inteiros que saltavam a cada puxar de braço. Gemia, gritava, agora de prazer. Encontrava-se à porta do orgasmo. Quase não havia mais carne, e seu corpo reluzia diante do espelho, com carne, sangue e metal misturados. Enterrou o punhal em sua genital, decepando o órgão enquanto estertorava com um orgasmo perene, pleno, absoluto. Estava completa.
***
Acordara às 3:40 a.m. quando recebera uma estranha ligação. Vinha do número de Danah. Porém, quando o dr. Atkins atendeu, ouviu apenas sons estranhos, algo parecido com choro ou gemidos, mas nada dotado de sentido. Automaticamente chamou o nome de Danah várias vezes, mas não houve respostas. Temeu pelo pior. Sua crise psicológica deveria ter chegado a pontos extremos e ela podia ter tentado o suicídio. Ou então poderia estar agonizando com as dores de cabeça novamente. O Dr. Atkins era residente da ala de pesquisas nanotecnológicas da Neotech e achou melhor ir até a área clínica pegar alguns medicamentos antes de se dirigir até o Distrito descobrir como estava Danah. Chegando na área clínica, dirigiu-se até a farmácia. Pegou uma dose de Dexetrina, 500mg, e mais uma dose de Valdol, para o caso de amplo descontrole emocional. Já estava de saída quando o holofone tocou. Antes de atender, notou pelo visor que se tratava de um assistente, e decidiu que o caso de Danah era mais importante. Desligou o aviso sonoro do holofone e seguiu para o transporte expresso, sem o desconforto do trânsito, a uma velocidade de 240 km/h. Chegaria em uma hora no apartamento de Danah.***
Bateu duas vezes e nenhuma resposta. Experimentou girar a maçaneta. A porta deslizou suavemente pelo portal, permitindo a entrada do Doutor no apartamento. Ao passar pela entrada da cozinha, um grande susto o acometeu. Manchas de sangue, e cacos de vidro espalhados por toda parte. Chamou o nome de Danah, mas não obteve resposta. O que estaria acontecendo? A experiência foi um sucesso. Em todos os aspectos, os voluntários apresentaram melhorias e adaptação aos nanos, porém, em todos os casos, descontroles emocionais e instabilidade mental parecia estar acometendo os duzentos pacientes. Mas o caso de Danah era, sem sombra de dúvidas, o pior. Chegou na sala, e encontrou um estado ainda mais caótico. Sangue e vômito estavam espalhados por toda parte. Sentiu náuseas ao receber uma golfada de ar carregado com forte odor. Recompôs-se rapidamente, com sua experiência em anos de situações clínicas. Foi até o quarto e encontrou tudo revirado. Não havia sinais de Danah. Já estava voltando para a sala, quando ouviu uma voz lhe chamando. Ao voltar-se, avistou uma mulher, com o corpo todo em metal, um estranho metal que se assemelhava a mercúrio, líquido, porém, firme, suspenso, emoldurando sua pele. Estava em pé, sedutoramente, sobre a cama. Estarrecido por sua imagem, o Doutor indagou: “Danah...!?” – A presença olhava para ele com serenidade e uma estranha aura de mistério, que não lhe permitia definir se era uma ameaça ou não. “Há tantas auroras que não brilharam ainda, Doutor. Mas o senhor tinha razão. Uma nova aurora está brilhando aqui. E tantas outras vão brilhar. Agora mesmo, sinto outras surgindo. E muitas coisas acontecendo ao redor. Você queria evolução, Doutor. E evolução e complexidade, não é o que queremos todos? Até nossos átomos, desde o início de tudo. Mas, Doutor, quem lhe disse que a evolução pode ser controlada por uma pessoa? Ou por um grupo de pessoas? O universo cresce e evolui em seu próprio ritmo, e por meios imprevistos e espontâneos.” – O Doutor Atkins não sabia o que dizer. Havia algo de musical naquela voz, e ao mesmo tempo algo de inumano. Sua presença vibrava no local, como se uma corrente de elétrons fluísse dela e tocasse os seus próprios. Em um misto de assombro, o Doutor tremia: “Você... não é real. Não pode ser real. Isso, é real?” – Danah sorriu: “Sim, Doutor. Nós somos reais. Essa é a síntese perfeita. Entre dois elementos opostos, emerge um terceiro, um terceiro incluído em uma lógica improvável, algo novo que, no entanto, conserva em si os elementos isoladamente opostos. Somos uma estrutura completa agora, orgânico e inorgânico, em uma só vida. Somos tecnorgânicos, Doutor. Toque em mim. Sinta minha pele, se não acredita!”
Diante da imperativa asserção, o Doutor lentamente esticou o braço trêmulo, os dedos tocando os seios de Danah. Sentiu a textura de uma pele macia e tenra. Porém, percebeu-a úmida. Constantemente líquida, como uma parede semi-sólida, sempre à beira da liquefação, mas impressionantemente sedutora e perfeita. “Isso não pode ser, Danah. Algo deu errado. Venha comigo para o Setor 3. Precisamos...” – Foi interrompido subitamente por Danah, que tocou em seus lábios com seu dedo indicador. “Não, Doutor Atkins. Você está enganado. Nada deu errado. Pelo contrário. Esse é o resultado que vocês almejavam, é o que anseia cada átomo seu. É a atração oculta de cada partícula de energia desse universo. Essa é uma aurora, Doutor, uma aurora pós-humana. E o senhor, tão ávido por difundi-la, agora mesmo será um divulgador. Nós nos veremos novamente, Doutor, do outro lado...” – dizendo isso, Danah se liquefez por completo, penetrando pela cama e descendo pelo chão, escorrendo e penetrando pelos átomos de cada parede, e sumindo da presença do Doutor.
Permaneceu por cerca de dez minutos imóvel na parede do quarto de Danah, sem saber o que fazer, tentando reorganizar os pensamentos. Lentamente pôs-se a andar, descendo até o estacionamento, ouvindo ainda a voz de Danah em sua cabeça, cada palavra paralisada no tempo, ecoando ainda lá, em sua memória. Dirigia-se para a estação, quando consultou o holofone. Havia uma mensagem para ele. Era o funcionário que havia negligenciado. Trazia uma mensagem dizendo que todos os voluntários haviam desaparecido de suas casas e trabalhos. Tudo aquilo era irreal. Irreal. “Dr. Atkins!” – Parou e olhou ao redor. Tinha certeza que o haviam chamado. Uma voz onipresente como o vento, que parecia soar direto em sua mente. Concluiu que estava cansado, e continuou seguindo sua trilha pela rua deserta, pensando nas palavras de Danah: “Essa é uma aurora, Doutor, uma aurora pós-humana. E o senhor, tão ávido por difundi-la, agora mesmo será um divulgador. Nós nos veremos novamente, Doutor, do outro lado...” – O que ela queria dizer com aquilo? Caminhava pensativo, seguindo seu caminho, recebendo no rosto os primeiros raios de sol. Há tantas auroras que não brilharam ainda. Ele mesmo, uma aurora...
FIM
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