Em algum ponto do Setor 7, o grande Lixão da Cidade Vertical, fica o Vault, um verdadeiro comboio de Cyber-Magiares que, sabe-se lá como, gera um constante campo de ocultamento, o que torna impossível detectar o numeroso clã de nômades por quaisquer tecnologias que sejam. Nem mesmo os poderosos satélites dos Staccato são capazes de localizá-los. O mais próximo que conseguiram foi demarcar uma vibração de ponto-cego em algum ponto norte da circunferência limite, mas nada além de sucata foi encontrado no local.
Sendo assim, foi com grande espanto e alarde que Tink reparou o estranho e solitário indivíduo parado há cerca de 300 metros do Vault, ao mesmo tempo em que um e-mail chegava com a mensagem: “Deixe-me entrar. Tenho negócios a tratar. Zero”.
“Mas que merda tá acontecendo aqui?” – vociferava Tink, enquanto alertava Celina e Cochrane sobre o intruso e o furo no sistema.
Logo, o rosto de Celina apareceu no holocubo: “Tink, já verifiquei o intruso. É Zero, o irmão de Zed. Deixe-o entrar!”
A imagem sumiu antes que Tink pudesse considerar questionar. E o tom de gravidade na voz de Celina era autoritário e incisivo o suficiente para que ele pudesse cogitar não obedecer.
Girou sua cadeira em direção ao monitor que captava a imagem de Zero. Emitiu um comando mental a partir do plugue em seu pescoço que o conectava ao sistema para abrir uma pequena escotilha, e que sobre esta não incidisse o campo de ocultamento, de modo que o visitante pudesse ver a pequena rampa de acesso, embora se questionasse se Zero não estaria vendo o Vault inteiro.
Com um segundo pensamento, viu a imagem de Zero se ampliar no monitor. Avistou um rosto bem barbeado , pele branca, cabelos pretos, lisos e curtos, com olhos ocultos por um óculos escuros e uma expressão impassível, imóvel.
Um terceiro pensamento-comando, e uma tela lateral iniciou uma varredura sobre aquele rosto.
“O quê? Mas que miserável!” – exclamou Tink ao ver a ficha de Zero, desplugando-se do Sistema e se levantando para encontrar-se com Celina, quando a porta eletrônica de sua câmara se abriu, e uma voz característica adentrou o local:
“Nem pense, Tink! Você nem deveria ter acessado o sistema para saber sobre ele” – a frase, entrecortada, revelou a presença de Cochrane, com sua voz grave e severa e sua típica expressão de censura mal-humorada no rosto com dois buracos no lugar dos olhos. A frieza dos olhos digitais ultrapassados só servia para aumentar a austeridade do cigano.
“Mas, Cochrane...” – Tink tentou se recompor – “Esse tal de Zero é conhecido por Alexander Toombs na Rede, um dos maiorais da rede de pesquisas da Overnet. O cara trabalha para os Staccato!”
“E daí, Tink! Não precisava pesquisar isso na Rede. Era só perguntar. Além do mais, quem não está na folha de pagamento dos Staccato, além dos nômades? Não é o que está na Rede que importa, mas sim o que não está registrado lá. Alexander é irmão de Zed. Não sei por que ele veio, mas não há motivos para desconfiança... ainda.”
“Sei” – disse Tink, desconfiado, enquanto andava na direção da escotilha aberta para Zero – “Mas o cara é da Overnet! Se tem alguém que pode ter descoberto que nós ainda temos os dados sobre os nanotechs roubados e que estamos vendendo essas informações para interessados, é ele. E se ele nos entregou para os Staccato?”
Cochrane segurou o ombro de Tink e o virou em sua direção, com olhar ameaçador:
“Olhe bem pra mim, Tink! Alexander seguiu o rumo dele, mas ele é um romani, assim como Zed. Ele é nosso sangue e nós vamos recebê-lo sem desconfiança, está entendendo?”
A discussão terminou ali. Cochrane tomou a dianteira e Tink seguiu em silêncio, pouco atrás. Ainda desconfiava, mas os laços de sangue eram mais fortes. Iria confiar no intruso... até que ele se revelasse um intruso.
***
“Você quer o quê?” – disse Celina, levantando-se de sua poltrona.
Sem demonstrar perturbação alguma, o homem de sobretudo bege e óculos escuro apenas reiterou calmamente o que havia dito antes:
“Quero a amostra de nanotechs que vocês roubaram dos Staccato, Celina”.
A mulher se inclinava diante de Zero como uma serpente ameaçadora, prestes a dar um bote fatal. Seus olhos faiscavam, antecipando um conflito.
“Se acalme, Celina” – interveio Cochrane – “Como você sabe que fomos nós, Zero?”
“Bem, vocês sabem de minha posição privilegiada na Overnet. Quando soube do roubo, imaginei que fossem vocês. Bastou criar um vetor de varredura na Rede por comunicações em subsistemas e logo encontrei essas mensagens. Aliás, elas não estavam muito bem criptografadas. Quem anda cuidando dessas coisas por aqui?
“Eu” – disse Tink, com jeito contrariado – “Mas a intenção não era criar algo hermético, que ninguém pudesse acessar. Era divulgar os códigos sem chamar atenção. Além disso, mesmo com um vetor de varreduras, seria necessário alguém 24 horas conectado à Hypernet, e nem com os trodos, nem com os plugues isso seria possível sem criar uma tormenta daquelas na cabeça”.
“Não no meu caso” – disse Zero – “Eu estou sempre conectado à Rede. A Overnet implantou um chip de conexão Bluetooth em meu neocórtex, mais especificamente aqui” – falou, apontando para uma pequena tatuagem em fora de zero em sua testa – “A tatuagem foi feita para ocultar a pequena cicatriz. Foi assim que localizei onde vocês estavam. Uma vez descoberto o sinal, segui-o ininterruptamente até a origem”.
“Uau!” - disse Tink – “Um chip de conexão! Cara, isso é demais! Como consigo um desses?”
“Tudo depende” – disse Zero, retirando os óculos e fitando Celina – “Vocês poderão ter isso e muito mais se eu tiver os nanos”.
“O que você pretende, Zero?” – Celina se inclinou em sua direção – “Vai devolver isso para aquela branquela Staccato?”
“Não... isso é para uso pessoal. Tenho um projeto que só pode ir adiante se eu tiver acesso à nanotecnologia”.
“Zero” – disse Cochrane , olhando para Celina – “Se nós resolvermos negociar com você, o que nós ganhamos?”
“Bem, toda a tecnologia que necessitarem e que eu tiver acesso, o que não é pouca coisa. E mais: eu posso garantir que jamais vocês ou qualquer nômade seja rastreado por qualquer sistema dependente ou mesmo levemente vinculado com a Hypernet. Ou seja, todos os sistemas oficiais e grande parte dos clandestinos da Cidade Vertical serão absolutamente incapacitados de encontrar vocês, sem nenhuma possibilidade de falha. Quanto aos códigos para replicação nanotecnológica, isso não me interessa. Os lucros podem ficar com vocês. Tudo o que quero é a amostra de nanos roubados. E eles não serão devolvidos aos Staccato” – afirmou enfaticamente, recolocando os óculos enquanto olhava para Celina.
A um movimento de Cochrane, um pequeno monitor surgiu de um suporte lateral, enquanto uma voz com forte sotaque irlandês respondeu do outro lado:
“O que há, chefe? Já é o fim do mundo?”
“Não, Mac” – disse Cochrane – “você precisa parar de tomar esse mijo que chama de cerveja. Venha pra sala de reunião, e traga o pacote especial com você”.
“Certo” – disse o irlandês, colocando uma pesada gás mask no rosto – “então já é o fim do mundo mesmo”.
***
Zero já estava preparado para deixar o Vault. Todas as micro novidades eletrônicas já haviam sido conferidas pelos Cyber-Magiares, e o pequeno frasco já estava devidamente alojado em seu sobretudo. Essa negociação custou-lhe caro, mas a recompensa valeria os gastos e os riscos.
“Tudo certo, Cochrane?” – perguntou, ajeitando os óculos no nariz.
“Só mais uma coisa, Zero” – aproximou-se com a mão ciborgue apontando para o rosto de Zero – "Quero que você me jure, por seu sangue romani, que não vai usar isso contra seu povo”.
“Não, Cochrane. Eu não vou usar isso contra ninguém. Ao contrário, com essa tecnologia, eu vou abrir uma nova estrada para os nômades. Uma que nunca imaginamos trilhar”.
Antes que Cochrane fizesse qualquer indagação, o som de palmas chamou a atenção dos dois para a escotilha dos fundos do mega trailer. Uma silhueta encontrava-se encostada de perfil na porta aberta, permitindo apenas ver o contorno de um homem alto. Foi dessa silhueta que se ouviu a seguir:
“Parabéns, Zero! Então, você agora tem condições de levar a burrice aos limites do imaginável, não é?”
Ao ouvir a voz, Zero se dirigiu em direção ao homem que, por sua vez, fez o mesmo.
“Zed, seu canalha! Estava me perguntando onde você estava!” – disse Zero, abraçando o irmão.
“Fique tranqüilo, Cochrane” – disse Zed – “Esse idiota aqui não vai prejudicar nenhum de nós. Aliás, se ele sequer mencionasse seus planos para qualquer um da Overnet, eles o internariam sem direito a reintegração. O que, aliás, seria o melhor a fazer, em minha opinião”.
“Bem” – disse Cochrane – “então creio que encerramos aqui. Vocês dois parecem ter coisas a conversar. Até breve, Zero”.
Com uma breve despedida, os dois irmãos se afastaram do Vault, indo e direção ao veículo de Zero, um Allarde vermelho que se encontrava com o mesmo campo de ocultamento do comboio cigano.
***
“Eu não sou louco, Zed, e você sabe disso!” – disse Zero, em tom impassível, olhando para o irmão, que estava com o rosto vermelho e à beira de um ataque passional.
“Não é? Fazer um backup do próprio cérebro não parece loucura suficiente pra você? E depois? Vai fazer o que com a internet?” – esbravejava Zed.
“Não é Internet. Agora é Hypernet. E eu pretendo me lançar integralmente à Rede”.
“E isso não é loucura? É obsessão além dos limites o que você tem com a Internet, Zero. Não há nada lá além de dados. Já não basta esse chip de conexão? Agora você quer viver lá dentro?”
Estavam em frente ao Allarde, embora o mesmo não pudesse ser claramente visível. Zero estava encostado na porta, olhando o irmão se mover de um lado para outro. Diferente de Zero, Zed sempre fora passional e agressivo. Zero também possuía um grande grau de agressividade, porém era do tipo cerebral, e um constante buscador da velha arte da magia em meio aos paradigmas tecnológicos da modernidade. A cada toque de Zero no capô do carro, este se mostrava parcialmente visível.
Olhou para Zed, enquanto ponderava sobre suas próximas palavras. Puxou um maço de cigarros Yamauchi do bolso do sobretudo e acendeu. Só depois da primeira tragada olhou para o irmão:
“Eu encontrei, Zed. Consegui determinar o ponto-cego”.
Zed, que até então gesticulava e andava de um lado para outro, estancou palidamente diante do irmão. Quase sussurrando disse, meio que para si mesmo: “Não pode ser! O ponto-cego é só uma teoria... Ele...”
“Ele existe, Zed, como eu sempre afirmei” – assegurou o irmão – “É uma sombra, um fantasma de estática por trás da rede. Eu o identifiquei. Tenho me lançado nessa busca desde que fiz o neuroimplante. Porém, a rede é uma mediação. Se eu conseguir recriar minha matriz a partir de um avatar nanotecnológico na hypernet, poderei transcender as formas midiáticas e atingir o ponto-cego. Mas só posso fazer isso de dentro da rede. Tudo é muito impreciso do lado de fora”.
Zed olhou para o Vault, cujo sistema embaralhador criava apenas uma tremulação no horizonte. Não via o Vault, mas sabia que ele estava lá. Sabia que havia um enorme comboio ali, repleto de ciganos que misturavam tradição a uma ampla tecnologia. Mas aos olhos de qualquer sensor, mesmo aos olhos humanos, havia apenas isso: um borrão no horizonte. Seria possível que seu irmão tivesse encontrado algo semelhante no interior da Hypernet?
“Zero, se você vai mesmo fazer isso, então essa é a última vez que nos veremos? Isso é um adeus?”
“Bem, irmão” – disse Zero – “se tudo der certo, com certeza não será a última vez. Eu estarei integralmente na rede. E outra: há total reversibilidade no processo. Poderei entrar e sair quando quiser”.
Dizendo isso, estendeu a mão para o irmão, que retribuiu com um forte aperto, e seguiu para o interior do Allarde. Em um instante, o veículo era apenas outra estática tremeluzente no horizonte.
***

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