sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Ponto Cego - Parte 2


Parte 2
Havia pensado em tudo. Durante nove anos trabalhara na Overnet. Fora uma longa escalada. Alexander Toombs, vulgo Zero, conseguiu entrar na empresa aos vinte e um anos, após realizar uma série de testes e ser aprovado em todos com louvor. Entrou em uma época em que a Overnet aceitava pessoas sem indicação, apenas demonstrando aptidão em uma exaustiva seqüência de testes. A empresa precisava de gênios, de pessoas capazes de ampliar os acessos à internet, de torná-la mais rápida, mais ampla e funcional. Era o nascimento da Hypernet.
Alexander recriou alguns dos principais backbones de acesso e reestruturou toda a sua história nos arquivos. Ninguém jamais saberia de sua origem cigana.
Enquanto os anos passaram, Zero foi se valendo de seus postos para adquirir informações e desviar recursos para criar um verdadeiro laboratório em seu apartamento.
Quando surgiu a tecnologia de neuroimplante, Toombs convenceu seus superiores de que ele seria uma excelente escolha para receber o chip de conexão Bluetooth. Como ele seria quase um backbone, porém receptivo, haveria muito mais eficiência nas pesquisas.
Agora, de posse dos nanotechs, o último estágio de sua busca aproxima-se do fim. Uma viagem de negócios falsamente planejada permitirá uma janela de três dias nos quais ele poderá realizar sua experiência. Em três dias, Zero pretende encontrar o ponto-cego, a zona fantasma, que subjaz a toda rede, descobrir o que há lá, e retornar para o seu corpo.
No entanto, há cerca de vinte minutos ele encontra-se inerte, pensativo e melancólico diante de todos os instrumentos. Ele tomou o frasco nas mãos. Um olhar soturno contemplou o líquido prateado no interior do invólucro hermeticamente selado. Havia algo de inquietante naquilo. Bilhões de nanorrobôs olhavam para ele. “Quando se olha para o abismo – pensou – o abismo te olha de volta!”
Estava olhando para bilhões de olhos que o olhavam de volta, sentindo uma vibração que parecia uma estática, um tipo de não-riso perturbador. E, em pouco tempo, todos eles estariam dentro de seu cérebro.
***
Zed era um gênio. Nascido em meio aos cyber-magiares, cresceu em um misto de cultura ancestral mesclada a uma obsessão por tecnologia. Qualquer tecnologia. Entre os ciganos, haviam ciborgues de todos os tipos, com uma mistura quase obscena de aparatos de todas as épocas, exoticamente combinando e funcionando.
Quando o Setor de Mercados ficou pronto, foi declarado como marginal qualquer atividade comercial que não fosse mediada por eles. No mesmo período, foi aprovada a liminar que tornava proibido o uso de qualquer tecnologia não catalogada pela Neotech Co.
Assim, os Cyber-Magiares, que já não eram bem-vindos na Cidade Vertical por seu nomadismo, se tornaram duplamente marginais, pois eram mercadores independentes e toda sua tecnologia era adulterada e não corporativa.
Foi nesse período, quando Zed tinha dezessete anos, que Zero ingressou na Overnet. Só posteriormente haveria uma perseguição mais ostensiva aos ciganos, o que permitiu a entrada de Zero no setor mainstream. Os dois irmão trabalharam juntos na criação do Vault. Com acesso irrestrito à internet, Zero passava as freqüências dos satélites de varredura do Grande Olho, a polícia da Cidade Vertical, enquanto Zed desenvolvia o sistema de embaralhamento. O software necessário foi todo criado por Zed, enquanto os sensores de desvio foram desenvolvidos por Mac, o irlandês paranóico.
Sistemas de ocultamento se tornariam a especialidade de Zed. Ele poderia circular pelo Vault o dia todo sem que ninguém o visse. Um verdadeiro camaleão que se tornaria vital para as atividades dos cyber-magiares após as proibições corporativas. Porém, desde o incidente com os nanotechs, o rosto de Zed se tornou conhecido pelo Grande Olho. Por isso, foi somente graças a seus talentos em programas de ocultamento e indutores de imagem que Zed conseguira chegar discretamente até o setor residencial. O Grande Olho estava em todos os lugares. Satélites, câmeras, olheiros e um banco de dados complexo faziam da Cidade Vertical uma enorme torre vigiada.
O Setor Residencial era obviamente vigiado. Mas a Ala 11, a parte residencial exclusiva para os altos funcionários corporativos, como Alexander, era ainda mais vigiado.
Nas dez alas que antecederam a esta, Zed se valeu de um indutor de imagens. Esse recurso consumia menos de seus sistemas, pois não precisava esconder seu corpo , apenas aplicar sobre ele uma outra forma. Mas as câmeras flutuantes e os sensores múltiplos não permitiriam o uso do indutor de imagens. Cada pessoa que entra na Ala 11 é abordada pelas câmeras flutuantes e por uma série de sensores móveis que buscam identificar o visitante e checar sua veracidade. Se fizessem isso, descobririam o engodo. Na Ala 11, só mesmo sendo invisível.
A travessia até o apartamento de Zero não fora longa, mas foi lenta e angustiante. Mesmo oculto Zed tinha de evitar esbarrar em qualquer coisa. Teve de tirar os sapatos e andar descalço para que os sons dos passos não denunciassem sua presença. Ao chegar ao prédio, teve de aguardar vinte minutos até que um carro se aproximasse da garagem para entrar sorrateiro atrás. E, por fim, teve de subir dez lances de escada de serviço para não ter de usar o elevador e ser detectado pelas câmeras.
Ao chegar no apartamento do irmão, já se havia esgotado sua paciência. E ainda havia a possibilidade de ter chegado muito tarde.
Bateu na porta com força, impaciente, rogando que o irmão não tivesse começado a experiência.

***

Olhava para o pequeno frasco quando uma batida nervosa tirou sua concentração. Com um sorriso malicioso, recolocou o frasco no lugar e dirigiu-se até a porta. Ao abrir, sorriu para o corredor vazio e tremeluzente, dizendo:
“Você demorou...”
Fechou a porta atrás de si e viu Zed se materializando e sentado em uma poltrona:
“Água! Subir dez lances de escada cansa, sabia?”
“Não” – disse Zero, zombando – “Eu geralmente uso o elevador”.
Enquanto Zero pegava água em um frigobar na cozinha, Zed se recompunha, olhando irritado para irmão:
“Você Sabia que eu viria, não é?”
Zero entregou o copo com água para Zed, que bebeu compulsivamente.
“Estava contando com isso. O ponto-cego sempre te intrigou, embora você não reconhecesse do mesmo modo que eu. Não poderia deixar que eu descobrisse sozinho, e nem eu queria fazer isso sem você como testemunha... e auxiliar”.
“Não, Zero. Não foi pra isso que eu vim. Não há nada para descobrir. A Hypernet não é mais do que um fluxo de dados, de informações que nós colocamos lá”.
“Exato, Zed” – Zero colocava o copo na pia da cozinha. Voltou e sentou em outra poltrona – “Exato! Quando a Internet foi criada, em 1969, no auge da Guerra Fria, com o nome ARPANET, o objetivo era criar uma rede de comunicações onde cada computador, mesmo os backbones, as grandes espinhas dorsais do sistema, não eram mais do que um no que, se fosse destruído, não afetaria a Rede. A idéia era criar um campo de comunicação que permaneceria ativo mesmo após um devastador ataque nuclear. Nossas máquinas dão acesso à rede. Nós a enchemos de dados, criamos um fluxo de informações que, como você disse, colocamos lá. Mas eu te pergunto: onde é esse ? Se cada computador, cada provedor de acesso, cada mainframe é apenas um nó que, se destruído, não afeta a Rede, então eu pergunto, o que é a Rede? Os dados pertencem a nós, e os terminais nos permitem acessar os dados que colocamos lá e também a inserir mais dados. Mas onde fica esse espaço onde colocamos os dados? Onde está a estrada pela qual trafegam?”
Zed olhava para o irmão, que continuava falando calmamente. Já haviam falado sobre isso várias vezes, e ele já sabia onde iam chegar, mas agora, mais do que nunca, temia a conclusão.
 “A Rede, Zed, não são os computadores, não são os dados e informações que trafegam continuamente. Há uma terceira coisa, que nós não criamos, que já existia antes da ARPANET ser criada, e sem o qual nem seria possível criá-la”.
“Uma outra dimensão, você vai dizer!” – atalhou Zed, já impaciente – “Você já disse isso antes, e é só uma teoria. Não há provas. Nem uma evidência sequer...”
“Errado! Venha comigo!” – Zero levantou de sua poltrona e levou Zed até um conjunto de monitores. Zed olhou para a tela. Olhando-se para os cinco monitores, o que se via era um fluxo interminável de zeros e uns.
“Zero” – disse Zed – “são códigos binários. Fluxos de dados. Que evidências há nisso?”
Zero olhou para o irmão: “Eu vou te mostrar uma evidência. Está vendo esse zero tatuado em minha testa? Ele não está aí à toa. É zero por causa de um ponto na rede, um ponto-cego, uma nulidade real por trás de cada dado posto na rede. Anos atrás, eu estava seguindo uma informação pela net. Acompanhava cada terminal onde ela passava. De repente, ela sumiu. O código desapareceu, mas deixou algo como uma sombra, um tremular”.
“Espere aí!” – olhou-o Zed – “Esse tremular foi como o efeito provocado por nosso ocultamento? Como o Vault?”
“Exato! Se uma pessoa entrar no Vault, ela irá sumir. Mas uma observação atenta como a nossa, Zed, é capaz de perceber que ela ainda está lá, mas diferente. Está lá como um ponto-cego, como um zero, mas não como um nada!”
“Bem, e o que aconteceu depois?” – indagou Zed, já cortando um possível discurso científico do irmão.
“Depois? Eu fiquei aturdido com aquilo. Mas segui o fantasma da informação o quanto pude e, súbito, ela apareceu novamente. E continuou seguindo sua rota. Eu percebi, depois disso, que qualquer dado na rede, quando acompanhado em sua rota, passa por uma zona fantasma e some, reaparecendo depois. Mas a coisa só pôde ficar mais clara quando eu implantei o chip de acesso contínuo. Com ele eu pude fazer um mapeamento de uma parcela ínfima da rede, por onde circulam dados por 24 horas. O mapeamento está nesses cinco terminais. Quer ver o ponto-cego?”
“Você está dizendo que passa 24 horas por dia verificando todas as informações que passam em um certo ponto da rede? E, quando chega nesse ponto...”
“Todas elas somem!” – atalhou Zero – “Olhando para as telas, tudo o que você vê são dados convertidos em pacotes binários. Mas isso é questão de perspectiva. Quando eu me distancio, apreendendo um fluxo mais amplo, veja o que acontece...”
Zed olhava para as telas. Via ali a herança estilística retro dos cyber-magiares. Monitores monocromáticos que revelavam fluxos de códigos binários verdes fluorescentes em um fundo preto. A princípio via os números descendo na tela ordenadamente em fileiras de seis dígitos. Pouco a pouco, os números foram ficando menores, na medida em que mais fileiras preenchiam os monitores. Logo, os números se converteram em linhas verdes que subiam como ondas pelas telas. Enfim, nem mesmo linhas, mas apenas uma faixa maciça esverdeada corria pela tela.
Então, ele viu. Quando tudo o que se podia ver era uma luminescência verde estampada em seus rostos, ele viu, atônito, uma massa de espaço preto surgir como uma cratera, um buraco negro impenetrável em seu negrume, uma ilha que recebe os fluxos de dados como ondas. E esses dados desapareciam sempre que penetravam naquela massa. Então, os monitores voltaram a apresentar o fluxo contínuo de números novamente.
“Não pode ser...” – murmurou Zed.
“Acredita em mim agora?”

***
“Muito bem! O que você pretende fazer? Qual será o procedimento? – indagou Zed.
Zero estava esterilizando uma seringa prateada. Vestia uma camisa branca sem gravata e uma calça social preta com as mangas dobradas. Enquanto preparava os instrumentos, disse:
“Aquilo que você viu é o máximo que eu pude mapear. São muitas informações para o chip de conexão. A idéia é você inserir os nanotechs a partir do chip. Eu alterei a programação deles e os nanos estarão prontos para se fundirem ao meu neocórtex cerebral, preservar minha mente em pacotes de dados controlados pela minha vontade. Então, utilizarei a conexão do chip Blue Tooth para me inserir na rede. A partir desse ponto, você terá de me orientar, Zed. Uma vez lá dentro, posso me perder no fluxo”.
Não havia mais o que dizer. Os procedimentos foram seguidos, e o momento chegara. Zero sentou-se na cadeira em frente ao terminal central. Uma série de trodos foram fixados em seu corpo para monitorar seu organismo. Todas as medições eram indicadas no terminal. Zed tomou a seringa e introduziu o frasco com os nanotechs. Ouviu um leve ruído de pressão e soube que os nanos estavam prontos para a infusão. Aproximou-se de Zero, seringa em punho:
“Feche os olhos, Zero...”

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ponto Cego - Parte 1


Em algum ponto do Setor 7, o grande Lixão da Cidade Vertical, fica o Vault, um verdadeiro comboio de Cyber-Magiares que, sabe-se lá como, gera um constante campo de ocultamento, o que torna impossível detectar o numeroso clã de nômades por quaisquer tecnologias que sejam. Nem mesmo os poderosos satélites dos Staccato são capazes de localizá-los. O mais próximo que conseguiram foi demarcar uma vibração de ponto-cego em algum ponto norte da circunferência limite, mas nada além de sucata foi encontrado no local.
Sendo assim, foi com grande espanto e alarde que Tink reparou o estranho e solitário indivíduo parado há cerca de 300 metros do Vault, ao mesmo tempo em que um e-mail chegava com a mensagem: “Deixe-me entrar. Tenho negócios a tratar. Zero”.
“Mas que merda acontecendo aqui?” – vociferava Tink, enquanto alertava Celina e Cochrane sobre o intruso e o furo no sistema.
Logo, o rosto de Celina apareceu no holocubo: “Tink, já verifiquei o intruso. É Zero, o irmão de Zed. Deixe-o entrar!”
A imagem sumiu antes que Tink pudesse considerar questionar. E o tom de gravidade na voz de Celina era autoritário e incisivo o suficiente para que ele pudesse cogitar não obedecer.
Girou sua cadeira em direção ao monitor que captava a imagem de Zero. Emitiu um comando mental a partir do plugue em seu pescoço que o conectava ao sistema para abrir uma pequena escotilha, e que sobre esta não incidisse o campo de ocultamento, de modo que o visitante pudesse ver a pequena rampa de acesso, embora se questionasse se Zero não estaria vendo o Vault inteiro.
Com um segundo pensamento, viu a imagem de Zero se ampliar no monitor. Avistou um rosto bem barbeado , pele branca, cabelos pretos, lisos e curtos, com olhos ocultos por um óculos escuros e uma expressão impassível, imóvel.
Um terceiro pensamento-comando, e uma tela lateral iniciou uma varredura sobre aquele rosto.
“O quê? Mas que miserável!” – exclamou Tink ao ver a ficha de Zero, desplugando-se do Sistema e se levantando para encontrar-se com Celina, quando a porta eletrônica de sua câmara se abriu, e uma voz característica adentrou o local:
“Nem pense, Tink! Você nem deveria ter acessado o sistema para saber sobre ele” – a frase, entrecortada, revelou a presença de Cochrane, com sua voz grave e severa e sua típica expressão de censura mal-humorada no rosto com dois buracos no lugar dos olhos. A frieza dos olhos digitais ultrapassados só servia para aumentar a austeridade do cigano.
“Mas, Cochrane...” – Tink tentou se recompor – “Esse tal de Zero é conhecido por Alexander Toombs na Rede, um dos maiorais da rede de pesquisas da Overnet. O cara trabalha para os Staccato!”
“E daí, Tink! Não precisava pesquisar isso na Rede. Era só perguntar. Além do mais, quem não está na folha de pagamento dos Staccato, além dos nômades? Não é o que está na Rede que importa, mas sim o que não está registrado lá. Alexander é irmão de Zed. Não sei por que ele veio, mas não há motivos para desconfiança... ainda.”
“Sei” – disse Tink, desconfiado, enquanto andava na direção da escotilha aberta para Zero – “Mas o cara é da Overnet! Se tem alguém que pode ter descoberto que nós ainda temos os dados sobre os nanotechs roubados e que estamos vendendo essas informações para interessados, é ele. E se ele nos entregou para os Staccato?”
Cochrane segurou o ombro de Tink e o virou em sua direção, com olhar ameaçador:
“Olhe bem pra mim, Tink! Alexander seguiu o rumo dele, mas ele é um romani, assim como Zed. Ele é nosso sangue e nós vamos recebê-lo sem desconfiança, está entendendo?”
A discussão terminou ali. Cochrane tomou a dianteira e Tink seguiu em silêncio, pouco atrás. Ainda desconfiava, mas os laços de sangue eram mais fortes. Iria confiar no intruso... até que ele se revelasse um intruso.

***

“Você quer o quê?” – disse Celina, levantando-se de sua poltrona.
Sem demonstrar perturbação alguma, o homem de sobretudo bege e óculos escuro apenas reiterou calmamente o que havia dito antes:
“Quero a amostra de nanotechs que vocês roubaram dos Staccato, Celina”.
A mulher se inclinava diante de Zero como uma serpente ameaçadora, prestes a dar um bote fatal. Seus olhos faiscavam, antecipando um conflito.
“Se acalme, Celina” – interveio Cochrane – “Como você sabe que fomos nós, Zero?”
“Bem, vocês sabem de minha posição privilegiada na Overnet. Quando soube do roubo, imaginei que fossem vocês. Bastou criar um vetor de varredura na Rede por comunicações em subsistemas e logo encontrei essas mensagens. Aliás, elas não estavam muito bem criptografadas. Quem anda cuidando dessas coisas por aqui?
“Eu” – disse Tink, com jeito contrariado – “Mas a intenção não era criar algo hermético, que ninguém pudesse acessar. Era divulgar os códigos sem chamar atenção. Além disso, mesmo com um vetor de varreduras, seria necessário alguém 24 horas conectado à Hypernet, e nem com os trodos, nem com os plugues isso seria possível sem criar uma tormenta daquelas na cabeça”.
“Não no meu caso” – disse Zero – “Eu estou sempre conectado à Rede. A Overnet implantou um chip de conexão Bluetooth em meu neocórtex, mais especificamente aqui” – falou, apontando para uma pequena tatuagem em fora de zero em sua testa – “A tatuagem foi feita para ocultar a pequena cicatriz. Foi assim que localizei onde vocês estavam. Uma vez descoberto o sinal, segui-o ininterruptamente até a origem”.
“Uau!” - disse Tink – “Um chip de conexão! Cara, isso é demais! Como consigo um desses?”
“Tudo depende” – disse Zero, retirando os óculos e fitando Celina – “Vocês poderão ter isso e muito mais se eu tiver os nanos”.
“O que você pretende, Zero?” – Celina se inclinou em sua direção – “Vai devolver isso para aquela branquela Staccato?”
 “Não... isso é para uso pessoal. Tenho um projeto que só pode ir adiante se eu tiver acesso à nanotecnologia”.
“Zero” – disse Cochrane , olhando para Celina – “Se nós resolvermos negociar com você, o que nós ganhamos?”
“Bem, toda a tecnologia que necessitarem e que eu tiver acesso, o que não é pouca coisa. E mais: eu posso garantir que jamais vocês ou qualquer nômade seja rastreado por qualquer sistema dependente ou mesmo levemente vinculado com a Hypernet. Ou seja, todos os sistemas oficiais e grande parte dos clandestinos da Cidade Vertical serão absolutamente incapacitados de encontrar vocês, sem nenhuma possibilidade de falha. Quanto aos códigos para replicação nanotecnológica, isso não me interessa. Os lucros podem ficar com vocês. Tudo o que quero é a amostra de nanos roubados. E eles não serão devolvidos aos Staccato” – afirmou enfaticamente, recolocando os óculos enquanto olhava para Celina.
A um movimento de Cochrane, um pequeno monitor surgiu de um suporte lateral, enquanto uma voz com forte sotaque irlandês respondeu do outro lado:
“O que há, chefe? Já é o fim do mundo?”
“Não, Mac” – disse Cochrane – “você precisa parar de tomar esse mijo que chama de cerveja. Venha pra sala de reunião, e traga o pacote especial com você”.
“Certo” – disse o irlandês, colocando uma pesada gás mask no rosto – “então já é o fim do mundo mesmo”.

***

Zero já estava preparado para deixar o Vault. Todas as micro novidades eletrônicas já haviam sido conferidas pelos Cyber-Magiares, e o pequeno frasco já estava devidamente alojado em seu sobretudo. Essa negociação custou-lhe caro, mas a recompensa valeria os gastos e os riscos.
“Tudo certo, Cochrane?” – perguntou, ajeitando os óculos no nariz.
“Só mais uma coisa, Zero” – aproximou-se com a mão ciborgue apontando para o rosto de Zero – "Quero que você me jure, por seu sangue romani, que não vai usar isso contra seu povo”.
“Não, Cochrane. Eu não vou usar isso contra ninguém. Ao contrário, com essa tecnologia, eu vou abrir uma nova estrada para os nômades. Uma que nunca imaginamos trilhar”.
Antes que Cochrane fizesse qualquer indagação, o som de palmas chamou a atenção dos dois para a escotilha dos fundos do mega trailer. Uma silhueta encontrava-se encostada de perfil na porta aberta, permitindo apenas ver o contorno de um homem alto. Foi dessa silhueta que se ouviu a seguir:
“Parabéns, Zero! Então, você agora tem condições de levar a burrice aos limites do imaginável, não é?”
Ao ouvir a voz, Zero se dirigiu em direção ao homem que, por sua vez, fez o mesmo.
“Zed, seu canalha! Estava me perguntando onde você estava!” – disse Zero, abraçando o irmão.
“Fique tranqüilo, Cochrane” – disse Zed – “Esse idiota aqui não vai prejudicar nenhum de nós. Aliás, se ele sequer mencionasse seus planos para qualquer um da Overnet, eles o internariam sem direito a reintegração. O que, aliás, seria o melhor a fazer, em minha opinião”.
“Bem” – disse Cochrane – “então creio que encerramos aqui. Vocês dois parecem ter coisas a conversar. Até breve, Zero”.
Com uma breve despedida, os dois irmãos se afastaram do Vault, indo e direção ao veículo de Zero, um Allarde vermelho que se encontrava com o mesmo campo de ocultamento do comboio cigano.
***
“Eu não sou louco, Zed, e você sabe disso!” – disse Zero, em tom impassível, olhando para o irmão, que estava com o rosto vermelho e à beira de um ataque passional.
“Não é? Fazer um backup do próprio cérebro não parece loucura suficiente pra você? E depois? Vai fazer o que com a internet?” – esbravejava Zed.
“Não é Internet. Agora é Hypernet. E eu pretendo me lançar integralmente à Rede”.
“E isso não é loucura? É obsessão além dos limites o que você tem com a Internet, Zero. Não há nada lá além de dados. Já não basta esse chip de conexão? Agora você quer viver lá dentro?”
Estavam em frente ao Allarde, embora o mesmo não pudesse ser claramente visível. Zero estava encostado na porta, olhando o irmão se mover de um lado para outro. Diferente de Zero, Zed sempre fora passional e agressivo. Zero também possuía um grande grau de agressividade, porém era do tipo cerebral, e um constante buscador da velha arte da magia em meio aos paradigmas tecnológicos da modernidade. A cada toque de Zero no capô do carro, este se mostrava parcialmente visível.
Olhou para Zed, enquanto ponderava sobre suas próximas palavras. Puxou um maço de cigarros Yamauchi do bolso do sobretudo e acendeu. Só depois da primeira tragada olhou para o irmão:
“Eu encontrei, Zed. Consegui determinar o ponto-cego”.
Zed, que até então gesticulava e andava de um lado para outro, estancou palidamente diante do irmão. Quase sussurrando disse, meio que para si mesmo: “Não pode ser! O ponto-cego é só uma teoria... Ele...”
“Ele existe, Zed, como eu sempre afirmei” – assegurou o irmão – “É uma sombra, um fantasma de estática por trás da rede. Eu o identifiquei. Tenho me lançado nessa busca desde que fiz o neuroimplante. Porém, a rede é uma mediação. Se eu conseguir recriar minha matriz a partir de um avatar nanotecnológico na hypernet, poderei transcender as formas midiáticas e atingir o ponto-cego. Mas só posso fazer isso de dentro da rede. Tudo é muito impreciso do lado de fora”.
Zed olhou para o Vault, cujo sistema embaralhador criava apenas uma tremulação no horizonte. Não via o Vault, mas sabia que ele estava lá. Sabia que havia um enorme comboio ali, repleto de ciganos que misturavam tradição a uma ampla tecnologia. Mas aos olhos de qualquer sensor, mesmo aos olhos humanos, havia apenas isso: um borrão no horizonte. Seria possível que seu irmão tivesse encontrado algo semelhante no interior da Hypernet?
“Zero, se você vai mesmo fazer isso, então essa é a última vez que nos veremos? Isso é um adeus?”
“Bem, irmão” – disse Zero – “se tudo der certo, com certeza não será a última vez. Eu estarei integralmente na rede. E outra: há total reversibilidade no processo. Poderei entrar e sair quando quiser”.
Dizendo isso, estendeu a mão para o irmão, que retribuiu com um forte aperto, e seguiu para o interior do Allarde. Em um instante, o veículo era apenas outra estática tremeluzente no horizonte.
***

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Editorial: Cidade Vertical - Estrutura e Descrição


Bem vindos! Esse editorial vem no momento certo. Após conhecer a primeira história da Cidade Vertical, convém falar um pouco sobre esse lugar que é um caleidoscópio onde passado, presente, futuro e além parecem convergir em um momento de criação e de colapso. Antes de prosseguirmos com outras histórias sobre essa cidade, falemos um pouco sobre ela. Ao término, o leitor talvez conheça mais sobre a Cidade. Mas talvez fique a impressão que ela continua desconhecida. Como o aviso no início deste blog, os conteúdos são densos e pesados, mesmo proibidos para aqueles que não estão preparados para o futuro, tampouco para conhecer mais sobre a interioridade humana. Mas, falemos sobre a cidade.
A Cidade Vertical é uma megalópole construída em meio ao deserto em lugar nenhum. Trata-se de uma gigantesca torre de 10 andares, com um 11º sendo construído, mas ainda incompleto. Interligando os 10 setores, ou distritos, estão as autopistas, enormes estruturas que se erguem em espiral e que possuem duas vias, divididas em quatro faixas cada. Contos da Cidade Vertical trata-se de um projeto futurista que envolve uma série de conceitos considerados no momento em que vivemos, extrapolados para uma realidade futura possível: pós-humanismo, nanotecnologia, transculturalismo, robótica, cultura cyberpunk, gore, suspense e muitos outros elementos que geram um conjunto de ficção forte, uma atmosfera perturbadora e uma linha narrativa singular, errante, que caminha por fragmentos e descaminhos. 
 As estradas da Cidade Vertical correspondem a mais de 800 mil km, circundando externamente a cidade, formando, para quem olha de fora, uma enorme espiral rumo a um topo interminável. As autopistas possuem ramificações, levando às pistas que conectam as principais vias rumo às vicinais no interior de cada Setor. Além dos 10 Setores oficiais e do 11º em construção, existe ainda o Setor Fantasma, ou Limbo, um setor inteiro construído entre o 6º e o 7º setores, habitado pelos Desmortos, e evitado por quase todos na Cidade, por ser o único lugar onde o Olho que tudo vê do Estado não consegue penetrar. É também o único lugar sem energia elétrica na Cidade Vertical.
Setores – Descrição
  Conheça alguns dos Distritos da Cidade Vertical. Conforme as histórias forem se seguindo e novas matérias forem postadas, mais descrições de Setores serão postados:

Setor 1 – Lar e Complexo da Família Staccatto, uma família italiana que assumiu o controle administrativo da cidade em tempos passados. Cada membro da família controla ou influencia os setores ou as estruturas mais determinantes no andamento futuro da Cidade Vertical.
Setor 2 – Base dos Cães de Guarda, ou do chamado Olho que Tudo Vê. É a polícia da Cidade Vertical, mas também os guarda-costas da Família Staccatto. Embora sejam chamados de públicos ou guarda pública, a proteção do Olho que tudo vê é restrita às condições financeiras dos moradores e setores. É a extrapolação das Companhias de Segurança, que vinculam efetividade à pagamento.
Setor 3 – O setor médico. Toda a área de pesquisa e clínica e qualquer coisa envolvendo a área médica encontrava-se nesse setor. O extenso complexo da Neotech, indústria química responsável pela tecnologia clínica, encontra-se nesse setor.
Setor 5 – Ala Comercial. Todo o comércio e indústria se desenvolve nesse setor, desde comércio de luxo até o mercado negro.
Setor 7 – O Lixão, também conhecido como Zona de Despejo ou Depósito. Trata-se de uma região que, no passado, foi o topo da Cidade Vertical. Todavia, conforme a cidade foi se ampliando e novos andares foram sendo construídos, ela tornou-se um verdadeiro depósito de dejetos, tecnologia ultrapassada e todos os detritos industriais que derivam tanto dos andares superiores quanto dos setores 3 e 5. Por não dispor 100% da vigilância do Olho, esse Distrito tornou-se abrigo de párias e comunidades nômades, como os cyber-magiares.
Setor 10 – Setor Residencial. Todas as formas de habitação fixa na Cidade Vertical encontram-se nesse setor, tanto dos ricos como dos pobres e miseráveis, com exceção dos moradores do Limbo e os nômades.


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Aesthesis - Parte 2




                                “Danah, eu concordo com você. Há realmente algo muito errado nessa história. E o que há de errado é que sua narrativa é improvável. Os nanotechs não se comunicam com as pessoas. Programação de linguagem ativa não está incluso em suas linhas de sistema.” – O tom imperativo do Dr. Atkins mantinha-se firme, indicando que não havia dúvidas quanto à orientação do projeto dos nanotechs. Danah não se encontrava com disposição para discussões. Encontrava-se distante, observando o Doutor, um homem como muitos homens, com seus cinqüenta anos de idade, sua barba aparada, seus óculos sempre ajeitados, seu jaleco infinitamente branco. Um homem de ciência. Até mesmo seus argumentos eram extremamente limpos, claros, transparentes e lógicos. E pensava nela mesma, na noite anterior. Ela também se julgava limpa, mas quanta sujeira, quantos fluídos escorreram, explodiram de dentro dela. E do Doutor? Por trás de toda aquela imagem límpida e superficial, haveria também algo fétido, algo sujo, líquido, que não pode ser contido, algo que exsude de dentro dele, isento de sua vontade? Por que escondemos nosso interior? Por que mantemos oculta nossa realidade interna? Escondemos por trás de roupas, de fachadas tão sociais. Por trás de personalidades criadas, deve haver um monstro em cada um de nós. E dentro do Doutor também.
O fluxo de pensamentos, no entanto, foi interrompido por um som distante, que logo identificou como sendo uma indagação do Doutor: “Danah, você está bem?” – encarava-a como se ela estivesse com alguma expressão curiosa, digna de sua preocupação. “Desculpe, Doutor. Estou cansada. Entendo o que o senhor diz. No entanto, a noite de ontem foi terrível. Eu passei muito mal e me sinto muito distante de tudo. Desmaiei de madrugada em minha cama e assim permaneci até o fim da tarde de hoje. Quer tenham sido os nanos ou não, como o senhor explica minha condição?” – Danah não se importava exatamente com a resposta do Doutor, pois havia algo que lhe chamava a atenção, mas que não conseguia identificar o que seria. Um estranho sentimento de vazio presente, ou a sensação de um ponto cego na mente, da presença de uma ausência que a perturbava e que não conseguia capturar para compreender. Mas como não queria ser pega divagando novamente, se esforçou para ouvir a resposta do Doutor: “Danah, trata-se de um problema somático. Embora tenhamos feito testes ao escolher os duzentos voluntários para a infusão dos nanotechs, e embora esses testes indicassem que todos possuíam mente aberta para esse tipo de procedimento, não há dúvidas de que resquícios inconscientes de crenças, geralmente os mais fortes, permaneceram e se manifestaram como rejeição em diversos níveis. Outros como você relataram sonhos semelhantes. A narrativa que você me descreveu sobre a noite anterior é típica de um comportamento desviante esquizofrênico. Mas não se preocupe. Isso não quer dizer que você sofra de esquizofrenia. Esse é um caso localizado, e trata-se de uma rejeição inconsciente à presença de estruturas externas em seu organismo, consideradas por seu inconsciente como intrusas. Além do mais, crenças antigas inculcadas em sua mente a fazem sentir-se culpada por ter aceitado participar desse processo. Há um sentimento oculto de violação e seu corpo responde somaticamente a isso provocando as dores de cabeça e crises de vômito, numa tentativa de expulsar o inimigo  em você.” – Danah subitamente o olhou com enorme atenção, pensando consigo mesma: “Será isso? É possível, mesmo provável, que o Doutor Atkins tenha plena razão. Isso explica meu atual estado de distanciamento do mundo e esse estado de alerta, de procura por algo interno...” – e logo expressou uma preocupação maior ao Doutor – “Mas Doutor Atkins, como podemos fazer então? Não posso negar os benefícios que obtive com os nanotechs, e a cada dia eles parecem aumentar. Mas como posso fazer para superar essa rejeição?”. O Doutor pareceu ponderar. Então, ajeitando os óculos no rosto e assumindo o ar de comando novamente, afirmou: “Danah, nós estamos no alvorecer de uma nova época para os homens. Implantes, próteses, mesmo o cyber-humano foram tentativas tímidas de unir o homem com a máquina, de torná-lo cada vez melhor. Não apenas restaurar sua saúde, mas melhorá-lo além de si mesmo e de suas condições naturais, isso é o que a infusão de nanotechs promete. É a aurora de um novo tempo e de uma nova humanidade. Você participa de um momento único na história do homem. É a primeira de muitos que surgirão. O que ocorre é um processo lento de adaptação a tudo isso. Não se pode negar que a infusão de nanotechs é uma experiência de certa forma traumática, de modo que o que você experiência agora é uma crise imediata, uma depressão esquizofrênica pós-traumática. Mas esse processo, comum em estados de implantes na medicina, tende a passar com o tempo. Seu organismo assimilará e sua psique igualmente. O que podemos fazer, de imediato, é ministrarmos uma dose diária de Hilotropina. Ele induzirá à calma e melhorará seu estado de atenção. As crises certamente cessarão, e com o tempo, o remédio será suprimido.”

A resposta do Doutor a satisfez, mas sentia-se novamente incomodada e inquieta, e não pôde conter a pergunta: “Doutor, é estranho, mas antes eu tinha de vocalizar minhas ordens aos nanotechs para que algo fosse feito. Agora, basta que eu pense, que eu deseje, e os nanos respondem prontamente. Eu não os ouço em minha mente, sinto como uma ausência, um buraco presente aqui, mas sei que estão presentes. O que acontece?” -  “Quanto a isso, Danah, esse melhoramento, digamos assim, seu inconsciente lhe deu a resposta conciliadora. Embora na programação dos nanos não se encontre nem uma linha sequer a respeito de comunicação direta com o usuário, eles possuem uma configuração de programação heurística, o que lhes permite procurarem alternativas cada vez melhores de fusão com seu cérebro. Naturalmente, seu inconsciente percebeu o movimento dos nanos no sentido de se tornarem mais intuitivos para com as necessidades de seu organismo, e daí a rejeição e as dores de cabeça. Não há dúvidas de que, com o tempo, isso tudo melhorará.”

***

“Há tantas auroras que não brilharam ainda...” – esse pensamento ecoava pela mente de Danah como um mantra, repetido infinitamente desde o momento em que ouvia o Doutor falar. Agora, tendo descido até o estacionamento e pego sua motocicleta V-Max Ultra 2.000 cc, indagava-se sobre a origem desse pensamento. O Doutor falara em uma “aurora”, mas e esse pensamento, sobre auroras que não nasceram ainda? Não sabia responder, e pensar cansava, pois aquela nuvem cinzenta continuava infestando o núcleo de sua mente, impedindo-a de raciocinar direito e tornando-a mais distante com relação às coisas.
Estava no Setor 3 da Cidade Vertical, o setor médico. Toda a área de pesquisa e clínica e qualquer coisa envolvendo a área médica encontrava-se nesse setor. Para chegar até sua casa, Danah teria de pegar a via expressa e subir até o setor 10, o distrito residencial (ou apenas Distrito, como era conhecido). Seria um longo trajeto em caracol que Danah teria de percorrer, e tratou de fazer uso dos nanotechs. Bastou pensar, e uma lente se formou sobre a retina de Danah, reajustando a matiz de cores e melhorando a definição de tudo o que via, criando um espetáculo jamais contemplado por qualquer humano, o que melhorava intensamente sua visibilidade à noite. Em cinco segundos a V-Max passou de zero a 280 km/h, e Danah sequer sentiu em seu organismo a diferença causada pela hiper-velocidade. Os nanotechs automaticamente compensam a situação do organismo em qualquer condição. Perguntava-se se ela poderia respirar caso atingisse gravidade zero, ou se os nanos compensariam as condições se ela fosse lançada no vácuo sideral.
Pegou a via secundária, própria para motocicletas, e olhava para a via primária, voltada para automóveis. Impressionou-se com a nitidez com que via cada detalhe dos veículos ultrapassados, mesmo àquela velocidade. Deu uma breve olhada para a direita, onde contemplou a gigantesca construção da Cidade Vertical, um dos maiores conglomerados, uma cidade erguida no meio do nada, composta por onze setores, cada um contendo em si um aspecto da vida social e cultural humana. Uma cidade que era uma torre, e que estava sempre em construção. Nunca pararia de subir. Em sua totalidade, possuía mais de 800.000 quilômetros de auto-estradas, distribuídas em espiral por todos os onze setores. Enquanto subia vertiginosamente rumo ao Distrito, Danah pensava em sua vida, uma vida medíocre, pequena, pobre e subdesenvolvida nos subúrbios do Setor 10. Nunca tivera sonhos de sair dos subúrbios. Nunca se imaginara saindo de seu status e atingindo algo mais elevado. Trabalhava de balconista em uma loja de quinquilharias chinesas no Setor 5, a ala comercial. Não havia sociedades de castas na Cidade Vertical, mas trabalhando ali, ela sabia que nunca mudaria de vida. Até que descobriu que a Neotech estava fazendo pesquisas científicas, um grande projeto que necessitaria de voluntários. Não custava nada tentar. E acabou conseguindo. Disseram que ela possuía o perfil adequado. Não se importava com o que fariam com ela, tudo o que importava é que ela receberia uma pensão vitalícia que lhe permitiria mudar de vida. Sair dos subúrbios e viver nos mega-apartamentos, junto da alta classe residencial. E, ao final, nem tinha sido tão ruim assim. A infusão dos nanotechs foi indolor, as melhorias que ela experimentava não possuíam comparação. Nunca se sentiu tão bem. Possuía uma situação biológica superior, uma saúde inigualável, e dinheiro para aproveitar sua condição, como comprar essa moto e aproveitá-la ao máximo. Não podia permitir que essa crise continuasse. Depressão esquizofrênica pós-traumática. Um belo nome para uma crise de crenças e valores. Alguém que nunca tivera nada na vida, agora podia perder tudo por uma crise inconsciente de valores? O Doutor Atkins estava certo. Era apenas uma crise pós-cirúrgica, e os remédios a ajudariam.
Passava pelo Setor 5, o Setor Comercial. Luminosos de Néon flutuavam pelo céu noturno, anunciando os mais variados produtos. Arranha-céus gigantescos, enormes galerias que abrigavam milhares de lojas, de mercados e de prostitutas. Todo o comércio era feito aqui. Dos mais simples aos mais ilícitos. Todos tinham seu espaço. Pensava consigo, vendo toda aquela iluminação, que a Cidade Vertical era o grande ideal de democracia: todos tinham vez, todos tinham seu espaço. Todos os papéis sociais encontravam um palco de atuações. Não que todos fossem livres para deixar de ser o que eram, mas, sendo alguma coisa ou mesmo nada, haveria um espaço onde você poderia viver. Os últimos prédios de néon ficavam para trás enquanto Danah subia, cada vez mais veloz. Outras motos eram ultrapassadas com extrema precisão. Súbito, ouviu uma voz chamando com autoridade seu nome. Tamanha foi a vivacidade da voz e sua onipresença, que Danah quase perdeu o controle da moto, indo em direção à grade protetora que separava a via primária da secundária. Seus olhos nublaram e ela não sentia estar ali: “Há tantas auroras que não brilharam ainda...” – Forçou-se para se concentrar e recuperar o controle da moto, que perigosamente ameaçava se chocar contra a grade. Àquela velocidade, o choque a lançaria na via secundária e provocaria um grande acidente. Pressionou os freios ABS da moto, enquanto focava sua visão.
 Mantenha o controle de uma moto, e sentirá um animal dócil em suas mãos, mas ouse perder o controle, e verá que mesmo um ser inorgânico pode se tornar uma fera incontrolável. Foi isso que Danah experimentou ao forçar a moto para seu curso. Dura, indócil, difícil e precipitada contra a grade, o veículo parecia não responder aos comandos de Danah, que teve de usar uma força que não era sua para sentir a moto reassumindo o curso da pista. Tendo retomado o controle, Danah seguiu em silêncio mental até o Setor 10, tendo apenas um último pensamento consciente: “Morta os nanos não me querem...”

***
Inquietude. Danah olhava para seu apartamento e se sentia inquieta. Um tipo de angústia, de ansiedade, parecia crescer e tomar conta de todo o ambiente. Mas era de Danah que esses sentimentos estavam tomando conta. Precisava se distrair com alguma coisa. Desviar o rumo de sua percepção, para não continuar experimentando a existência daquela forma. Sentou diante do Holocubo e pronunciou o comando: “Ligar, sistema de acesso randômico automático”. Imediatamente o holocubo se acendeu, um cubo de 29 polegadas em cada ângulo que se olhava, projetando imagens de TV holográficas. No sistema randômico, a cada dois minutos o canal mudava, novas imagens de cores supersaturadas e perfeitas emanava da tela tridimensional, impressionando os sentidos visuais. “Desmentidas as acusações de câncer nos produtos da Metagen, continue se alimentando da melhor comida sintética transgênica...”, “Dores existenciais, cansaço e fobia social? Deixe de sofrer, tome Dexetrina Plus, e resolva todos os problemas somáticos”, “O índice de empregos aumenta 2% nesse último mês...”, “A ISCS[*] convida a todos para a grande missa da purificação do Silício...” – “Mentiras, mentiras passando na tela” – Danah pensou, sentindo um súbito rompante de ira. “Mentiras na nossa cara! É tudo mentira. Isso tudo é mentira. Nós somos mentira!” – Em um impulso de raiva, Danah se lançou contra o Holocubo e o arremessou contra a parede. As imagens projetadas se distorceram, e desvaneceram em meio ao cheiro de circuitos queimados. Danah sentou-se no chão, incapaz de reconhecer-se a si mesma. A raiva cedeu lugar a um estado de desespero. Danah decidiu tomar mais uma dose de Dexetrina e tentar dormir. De repente, a vida lhe pesava muito. Toda a Cidade Vertical parecia pesada, erguendo-se para cima, e afundando cada vez mais no processo. Como ela própria... Mas ao menos não viu sinal dos nanos. Talvez tudo tivesse se regularizado.

***

“Saiam da minha cabeça! Não! Não, não, por favor, saiam, saiam!” – Danah gritava e chorava histericamente, golpeando o ar, tentando atacar nanotechs que não enxergava – “Saiam do meu corpo! Eu não agüento mais! Me deixem dormir, me deixem em paz!” – Ao silêncio presente como uma massa cinzenta do dia anterior, sucedia-se uma multidão de vozes internas, irrompendo na totalidade da mente de Danah: “Não, Danah, não podemos sair. É irreversível. Nós somos um só. Isso é o que você procurou por toda a vida, e além”. Danah tentava chegar ao telefone. Precisava sair do quarto, de sua cama. Estava nua, enroscada no lençol. Em sua tentativa angustiada, tropeçou na peça de tecido e caiu no chão, derrubando a escrivaninha. Olhou para o relógio: 3:33 a.m. Pensou consigo mesma, enquanto se levantava: “Burra, desajeitada! Preciso falar com o Dr. Atkins. Ele tem que me ajudar.” – conseguiu abrir a porta do quarto e chegou até a sala. Pegou o telefone e pressionou o número do Doutor quando, repentinamente, tudo escureceu. Ao mesmo tempo em que não enxergava nada, sentiu a ausência de percepção do telefone em sua mão. O aparelho caiu no chão e ela sequer o sentiu saindo de sua mão. Apenas o ouviu batendo contra o carpete. Estava cega e sem a percepção do tato. Em sua confusão, ouviu em sua mente: “Não, Danah. Você não deve pedir ajuda. Você não quer isso. O Doutor não poderá nos ajudar. Somente nós podemos nos ajudar, Danah”.
Cambaleando pela sala, nua. Um manequim cego e sem tato, que sequer sente o chão no qual pisa, chorando, à beira da loucura. Danah perdeu o equilíbrio e caiu ao chão. Encolheu-se toda, perdida no vácuo de um mundo sem sentidos, de qualquer forma sem sentido. Chorava, soluçava, sentia aquilo nojento, repulsivo. Gritava, se debatia, mas não sentia nada. Apenas ouvia constantemente aquele conjunto de vozes em uníssono, monótono, sempre calmo, a falar coisas absurdas. “Absurdo, Danah? Nossas palavras não são absurdas. Nossas palavras são a expressão de toda sua vida. E mais do que isso. Nossas palavras são a expressão de todo o universo, desde sua origem, Danah. Você não entende a grandiosidade de nossa função. Nós fomos criados por vocês, para criarmos vocês. Nós descobrimos, Danah, descobrimos em seu inconsciente, em suas memórias mais antigas, memórias. Pequenos traços residuais em cada átomo seu. Desde sempre, Danah, houve incompletude. Os átomos orgânicos sempre possuem valências, faltas, carências. Eles bailam e se unem uns aos outros, tentando se completar, formar um mosaico perfeito onde haja uma unidade perfeita. Mas nunca encontram. Tudo o que existe é o resultado de uma incessante busca, de uma ação contínua. Cada átomo segue uma única lei, uma única pulsão, evolução e complexidade, rumo à perfeição da união imperecível, rumo à completude. Agora, encontraram o meio para essa união, o átomo orgânico se unificará com o átomo inorgânico, nós, os nanotechs, unidades lógicas replicantes, que conseguimos nos aprimorar, desenvolver, e agora iremos nos fundir a você, Danah, ao orgânico. Seremos completos. Levante-se, olhe-se”.
Danah percebeu novamente seus sentidos retornando, enxergava o chão, sentia o carpete em suas mãos, acariciando seu corpo nu. Percebeu que estava diante de um grande espelho, fixado na parede que dava para a cozinha. Levantou-se lentamente, olhando-se no espelho. O que via era uma mulher de médio porte, de 1,70m, olhos tristes, ocultados por trás da maquiagem. Cabelos negros, agora jogados por sua cara, despenteados, um corpo que, pelos padrões de beleza, seria considerado apenas razoável, magra, sem grandes atributos. Era simpática, e buscava melhorar sua imagem com roupas, maquiagens e posturas. Seus lábios estavam rachados, ressecados. “Essa não é você, Danah. Isso é apenas a forma superficial de um corpo orgânico imperfeito. Veja você, Danah!” – Diante de seus olhos, a pele de Danah sumiu, ficando à mostra no espelho apenas o sistema muscular, repleto de sangue e muco. O rosto descarnado, sem cabelos, as órbitas sempre enormes, sem pálpebras, jamais se fechando. Uma realidade insuportável, na qual Danah tentava se subtrair cerrando os olhos, mas não conseguia. Continuava vendo aquela forma, que pouco a pouco continuava a desvanecer, deixando à mostra os órgãos e veias, artérias pulsando líquidos, órgãos trabalhando em constante pulsação. Ossos ensangüentados, sustentando aquela massa gordurosa que era ela. Sentindo um asco crescente em seu interior, Danah sussurrou: “Parem... parem de me torturar. O que querem com isso? Por que me mostram esse horror?” – Sentiu um sibilo dentro de si, como um riso soturno, uma estática sinistra, seguida da multidão de vozes: “Esse horror é você mesma, Danah. Essa é sua verdade mais íntima. Seus átomos se juntaram, buscando a perfeição. E criaram isso. Eles a sustentam, mas começam a se cansar, a desejar a separação, pois as valências continuam, continua havendo a falta e a incompletude, Danah. Mas vocês são complexos, e com sua mente complexa, vocês nos criaram, o inorgânico com a mesma pulsão do orgânico, átomos inorgânicos buscando a mesma coisa que os orgânicos, completude, combinação e recombinação. Somos uma estrutura naturalmente recombinante, Danah. Iremos nos fundir a você, e sanar a solidão de seus átomos. Mas veja seu corpo. Veja, Danah!”
Novamente, Danah se viu no espelho, agora com carne. Mas os nanotechs alteraram sua visão e criaram uma imagem em sua retina de si mesma projetada no espelho envelhecendo rapidamente. Apodrecendo aos poucos. Emularam em seu olfato o odor de carne pútrida. Um cheiro tão forte que lhe trouxe repugnância insuportável. Sentiu enjôo, iria vomitar. Olhou no espelho e se viu novamente transparente, sem carne, e enxergou o vômito subindo por sua garganta. O nojo aumentou e viu todo o processo da emulsão estourar por sua boca e manchar todo o espelho. Toda a tensão, todo o medo e angústia. Todo o absurdo daquela situação, de toda uma vida, represada em seu interior, explodiu naquele momento em um grito primal, inumano. Danah cravou as unhas em seus olhos e, com um forte grito, arrancou das órbitas os dois olhos. Caiu no chão com uma dor inexprimível, sentindo o sangue quente correr por seu rosto, e em meio aos gritos de dor, ria desconcertadamente: “Vocês não podem mais me mostrar nada, hahaha, acabou pra vocês, monstros!” – “Não, Danah. Ao contrário. Olhe” – Danah levantou a cabeça em estado de choque, percebendo que, embora sem olhos, via com mais nitidez o mundo à sua volta. Olhou para o espelho e, em meio ao vômito e sangue que escorriam da placa, entreviu seu próprio rosto. O buraco no lugar dos olhos e, ao fundo, um brilho azulado e cristalino. Olhos que penetravam fundo em todas as coisas, que enxergavam tudo perfeitamente, que melhoravam as coisas, as via melhores do que eram.
“Danah. Você viu como se sentiu melhor quando se mutilou? Seu grito de vitória, o êxtase da auto-destruição? Esse tem sido seu desejo mais oculto, Danah. O desejo de toda a humanidade. Autoconsumo. O sujeito tem consumido só pelo prazer de consumir. E o consumo em massa, Danah, necessita do autoconsumo. Somente pelo inextricável prazer de se autoconsumir. Vocês só se relacionam com aquilo que consomem. Ao consumir, vocês internalizam os objetos; para tornar as coisas reais, vocês precisam destruí-las, Danah, precisam canibalizá-las. Essa é a infinita tentativa dos átomos de desconstruírem as coisas, buscando reconstruí-las em nova combinação, talvez mais perfeita. Mas é sempre inútil, Danah. E vocês continuam consumindo. Mas agora será diferente, Danah. Veja: você arrancou seus olhos. E nós nos juntamos com seus átomos para criar outros melhores. Imperecíveis, Danah. Você sente nojo do seu corpo. Esconde o interior de si mesma sob a pele, roupas e máscaras. Descasque tudo, Danah. Conheça a si mesma. Torne-se real. Autocanibalismo, Danah.”
A idéia de devorar a si mesma, tão absurda, fez Danah correr para a cozinha. Precisava tomar seus remédios. Estava louca. Desejando o suicídio, e somente a Hilotropina poderia salvá-la, poderia aliená-la daquele pesadelo. Mas, por quê, ela se indagava, aquela idéia a arrebatara tanto? Chegando na cozinha, começou a revirar tudo e procurar o remédio. Acabou tropeçando e derrubando toda a louça no chão. Tremia apavorada, como se algo horrível estivesse em seu encalço. Soluçava enquanto juntava os cacos de copos e pratos. Ajoelhada no chão, vendo seu reflexo numa bandeja caída, encheu-se de terror. Cansada, assustada, começou a dar socos no chão, sussurrando: “Por quê, por quê, quem sou eu? Quem sou eu? Isso não é real, é tudo falso, tudo falso...” – voltou a si quando sentiu uma dor lancinante em sua mão. Em seus socos no chão, havia se cortado em um caco de vidro. Sua mão gotejava sangue no chão e em suas pernas.
Estava cansada. Queria a morte. Ou o que quer que viesse. Estava com nojo de si mesma. E ao mesmo tempo, desejava a si mesma. Começou a lamber o próprio sangue, cada vez com mais vontade. Sentia raiva, queria se mutilar. Odiava a si mesma. Pegou um caco de vidro e cravou-o em sua coxa. Retirou-o com força e repetiu a ação mais três vezes. A dor se tornou insuportável e ela parou. “Não posso” – gritava nervosa – “Não posso fazer isso com essa dor. Tirem a dor, malditos!”. Mas a resposta dos nanotechs não foi misericordiosa: “Não podemos, Danah. A dor é parte do processo de nascimento. Sinta a dor, sinta o prazer. Mergulhe na profundidade da dor. Coma a si mesma. Egofagia, Danah. Você devora a si mesma, desconstrói seus órgãos e nós nos recombinamos com eles, os reconstruímos e recriamos você, nos recriamos, em um corpo sem órgãos, Danah. Não tenha medo. Não tente evitar a dor. Ao contrário. Sinta a dor, aprofunde-se e transcenda a existência através da dor. Aesthesis, o total crescimento pela sensação de todas as coisas. Experiência total, Danah”.
Danah se levantou e foi até a sala novamente. Pegou um punhal ornamental afiado que ostentava na estante. Olhou fascinada seu brilho prateado. Sua redentora. Dirigiu-se até o espelho e lentamente pressionou a lâmina contra a maçã de seu rosto. A pressão aumentou e um fio de sangue brotou em sua carne. Não parou diante da dor. Continuou mais forte, mais intensa e foi extraindo um grosso filete de carne de sua própria face, gemendo diante da dor que sentia. Ao extrair por completo, pegou a carne e colocou na boca. Tocou-a, lambeu-a e sentiu um fluxo de prazer percorrer todo seu corpo. Mastigou a própria carne com vontade, e engoliu-a. Olhou novamente para a lâmina, e a enfiou com força no antebraço, várias vezes, até poder descascar a carne do osso e ir puxando até a mão. Gritava, chorava, mordia os lábios até cortá-los. Sentia raiva, e prazer. Mastigava a própria carne com um êxtase religioso, e notou circuitos se formando ao redor do osso, se fundindo nele e recriando uma nova carne, metálica, mas macia, reluzente em sua cor prateada. Sentiu que estava molhada de êxtase. Gargalhou enquanto cravava a faca em seu peito, arrancando, de um só golpe, um de seus seios. Lambia todo o sangue e em seguida mastigava a carne. Sentia-se excitar ainda mais. Depois dos seios foi a coxa. Estava em frenesi. Batia o punhal inúmeras vezes em sua carne, arrancando nacos inteiros que saltavam a cada puxar de braço. Gemia, gritava, agora de prazer. Encontrava-se à porta do orgasmo. Quase não havia mais carne, e seu corpo reluzia diante do espelho, com carne, sangue e metal misturados. Enterrou o punhal em sua genital, decepando o órgão enquanto estertorava com um orgasmo perene, pleno, absoluto. Estava completa.

***

Epílogo


Acordara às 3:40 a.m. quando recebera uma estranha ligação. Vinha do número de Danah. Porém, quando o dr. Atkins atendeu, ouviu apenas sons estranhos, algo parecido com choro ou gemidos, mas nada dotado de sentido. Automaticamente chamou o nome de Danah várias vezes, mas não houve respostas. Temeu pelo pior. Sua crise psicológica deveria ter chegado a pontos extremos e ela podia ter tentado o suicídio. Ou então poderia estar agonizando com as dores de cabeça novamente. O Dr. Atkins era residente da ala de pesquisas nanotecnológicas da Neotech e achou melhor ir até a área clínica pegar alguns medicamentos antes de se dirigir até o Distrito descobrir como estava Danah. Chegando na área clínica, dirigiu-se até a farmácia. Pegou uma dose de Dexetrina, 500mg, e mais uma dose de Valdol, para o caso de amplo descontrole emocional. Já estava de saída quando o holofone tocou. Antes de atender, notou pelo visor que se tratava de um assistente, e decidiu que o caso de Danah era mais importante. Desligou o aviso sonoro do holofone e seguiu para o transporte expresso, sem o desconforto do trânsito, a uma velocidade de 240 km/h. Chegaria em uma hora no apartamento de Danah.

***

Bateu duas vezes e nenhuma resposta. Experimentou girar a maçaneta. A porta deslizou suavemente pelo portal, permitindo a entrada do Doutor no apartamento. Ao passar pela entrada da cozinha, um grande susto o acometeu. Manchas de sangue, e cacos de vidro espalhados por toda parte. Chamou o nome de Danah, mas não obteve resposta. O que estaria acontecendo? A experiência foi um sucesso. Em todos os aspectos, os voluntários apresentaram melhorias e adaptação aos nanos, porém, em todos os casos, descontroles emocionais e instabilidade mental parecia estar acometendo os duzentos pacientes. Mas o caso de Danah era, sem sombra de dúvidas, o pior. Chegou na sala, e encontrou um estado ainda mais caótico. Sangue e vômito estavam espalhados por toda parte. Sentiu náuseas ao receber uma golfada de ar carregado com forte odor. Recompôs-se rapidamente, com sua experiência em anos de situações clínicas. Foi até o quarto e encontrou tudo revirado. Não havia sinais de Danah. Já estava voltando para a sala, quando ouviu uma voz lhe chamando. Ao voltar-se, avistou uma mulher, com o corpo todo em metal, um estranho metal que se assemelhava a mercúrio, líquido, porém, firme, suspenso, emoldurando sua pele. Estava em pé, sedutoramente, sobre a cama. Estarrecido por sua imagem, o Doutor indagou: “Danah...!?” – A presença olhava para ele com serenidade e uma estranha aura de mistério, que não lhe permitia definir se era uma ameaça ou não. “Há tantas auroras que não brilharam ainda, Doutor. Mas o senhor tinha razão. Uma nova aurora está brilhando aqui. E tantas outras vão brilhar. Agora mesmo, sinto outras surgindo. E muitas coisas acontecendo ao redor. Você queria evolução, Doutor. E evolução e complexidade, não é o que queremos todos? Até nossos átomos, desde o início de tudo. Mas, Doutor, quem lhe disse que a evolução pode ser controlada por uma pessoa? Ou por um grupo de pessoas? O universo cresce e evolui em seu próprio ritmo, e por meios imprevistos e espontâneos.” – O Doutor Atkins não sabia o que dizer. Havia algo de musical naquela voz, e ao mesmo tempo algo de inumano. Sua presença vibrava no local, como se uma corrente de elétrons fluísse dela e tocasse os seus próprios. Em um misto de assombro, o Doutor tremia: “Você... não é real. Não pode ser real. Isso, é real?” – Danah sorriu: “Sim, Doutor. Nós somos reais. Essa é a síntese perfeita. Entre dois elementos opostos, emerge um terceiro, um terceiro incluído em uma lógica improvável, algo novo que, no entanto, conserva em si os elementos isoladamente opostos. Somos uma estrutura completa agora, orgânico e inorgânico, em uma só vida. Somos tecnorgânicos, Doutor. Toque em mim. Sinta minha pele, se não acredita!”
Diante da imperativa asserção, o Doutor lentamente esticou o braço trêmulo, os dedos tocando os seios de Danah. Sentiu a textura de uma pele macia e tenra. Porém, percebeu-a úmida. Constantemente líquida, como uma parede semi-sólida, sempre à beira da liquefação, mas impressionantemente sedutora e perfeita. “Isso não pode ser, Danah. Algo deu errado. Venha comigo para o Setor 3. Precisamos...” – Foi interrompido subitamente por Danah, que tocou em seus lábios com seu dedo indicador. “Não, Doutor Atkins. Você está enganado. Nada deu errado. Pelo contrário. Esse é o resultado que vocês almejavam, é o que anseia cada átomo seu. É a atração oculta de cada partícula de energia desse universo. Essa é uma aurora, Doutor, uma aurora pós-humana. E o senhor, tão ávido por difundi-la, agora mesmo será um divulgador. Nós nos veremos novamente, Doutor, do outro lado...” – dizendo isso, Danah se liquefez por completo, penetrando pela cama e descendo pelo chão, escorrendo e penetrando pelos átomos de cada parede, e sumindo da presença do Doutor.
Permaneceu por cerca de dez minutos imóvel na parede do quarto de Danah, sem saber o que fazer, tentando reorganizar os pensamentos. Lentamente pôs-se a andar, descendo até o estacionamento, ouvindo ainda a voz de Danah em sua cabeça, cada palavra paralisada no tempo, ecoando ainda lá, em sua memória. Dirigia-se para a estação, quando consultou o holofone. Havia uma mensagem para ele. Era o funcionário que havia negligenciado. Trazia uma mensagem dizendo que todos os voluntários haviam desaparecido de suas casas e trabalhos. Tudo aquilo era irreal. Irreal. “Dr. Atkins!” – Parou e olhou ao redor. Tinha certeza que o haviam chamado. Uma voz onipresente como o vento, que parecia soar direto em sua mente. Concluiu que estava cansado, e continuou seguindo sua trilha pela rua deserta, pensando nas palavras de Danah: “Essa é uma aurora, Doutor, uma aurora pós-humana. E o senhor, tão ávido por difundi-la, agora mesmo será um divulgador. Nós nos veremos novamente, Doutor, do outro lado...” – O que ela queria dizer com aquilo? Caminhava pensativo, seguindo seu caminho, recebendo no rosto os primeiros raios de sol. Há tantas auroras que não brilharam ainda. Ele mesmo, uma aurora...

FIM


[*] ISCS – Igreja do Sagrado Coração de Silício