domingo, 12 de junho de 2011

Epílogo


Epílogo
O que poderia prepará-lo para tal visão? Adentrara o ponto cego, atingira a zona fantasma da hypernet. E lá havia a visão mais espantosa que poderia contemplar em toda sua existência. A princípio, fora uma escuridão sem fim. Não havia comunicação com o exterior, nem sequer com o fluxo de dados da net. Não havia luz, não havia som, não havia chão sob seus pés, nem tampouco gravidade. Mas logo sentiu algo. Havia uma presença ali. Sentia uma vibração. Em seus ouvidos percebia, não um som, mas algo, uma espécie de estampido surdo que denunciava uma presença ali, uma presença que vibrava. Sentiu uma sensação muito próxima ao calor e viu diante de si um caminho iluminado fracamente por velas. Não havia chão, mas havia uma trilha de velas flutuantes que o convidavam a seguir adiante. E ele assim o fez.
Seguiu as velas por um corredor de puro nigredo. Não enxergava o fim mas, até onde sua visão alcançava, via velas acesas. Caminhou assim, pacientemente, por uma pequena eternidade em sua percepção subjetiva. A cada passo que dava, sentia uma estática, uma interferência pulsante em cada nanotech que o compunha. E essa estática, essa estranha pulsação rítmica aumentava como uma espécie de ansiedade semiótica. Era como se cada partícula transmodal estivesse aguardando por um novo fluxo de informações. Algo ulterior, que transcendesse todas as formas de semiose produzidas pelas informações cumulativas humanas.
Continuou a caminhada, e quanto mais seguia mais percebia um ritmo tomando conta do ambiente. Não podia denominar aquilo música, pois não havia som. Sentia, sim, uma vibração, uma freqüência de presenças e ausências que compunham algo que, quanto mais se aproximava do epicentro, mais se assemelhava a um ditirambo dionisíaco. O que poderia ser aquilo não sabia dizer. Não ousava questionar, mesmo porque não havia cruzamento de dados possíveis para interpretar o devir. Ainda assim prosseguia pela trilha. Seja o que for que lá havia, tinha de se manifestar. Tinha de se tornar fenômeno para poder se fazer notar. E, para tanto, assumiu as formas que eram passíveis de compreensão humana, mesmo uma forma humana já evoluída para um ser tecnorgânico.
Zero observou o nigredo assumir contornos, em movimentos de sombras voluptuosas que, em um enlace libidinoso, principiou por formar um ambiente afrodisíaco. A escuridão permanecia, sufocante e opressiva. Mesmo as velas eram negras e sua fraca luz era de um tipo de luz escura e avermelhada. O vermelho irromperia levemente no negro, determinando o tom de todo um obscuro salão no qual desembocaria sua caminhada. As velas se multiplicaram. Via-as não apenas no suposto chão, mas também flutuavam por todos os cantos, alturas e ângulos improváveis. O ditirambo ganhou som. E que som! Flautas insanas ecoavam juntamente a tambores e percussão. Sons que remetiam à perdição, saltérios desafinados, cuja dissonância realçava o aspecto de delírio de tudo aquilo. Sentia os nanotechs pulsarem desordenados, ao se depararem com a total ausência de lógica. Olhava para os cantos entre as velas, na escuridão, e ora parecia distinguir linhas que não podiam ser de programação humana. Elas se desenvolveram naturalmente ali, no núcleo do Abismo.
Subitamente, se deteve em um ponto. Havia uma sombra em um certo lugar de todo aquele estranho templo, um corpo que se movia. Sim, um corpo! Não distinguia bem as feições, mas percebia que ele se movia no estranho delírio rítmico do ambiente. Logo, uma luminescência vermelha, de flamas evanescentes iluminava a figura. Uma mulher se mostrou para ele. Não parecia vê-lo. Estava dançando em êxtase febril. Vestia uma saia lilás que deixava as pernas à mostra. Seu ventre indicava que estava grávida. Seus seios fartos, desnudos, arfavam insinuantes ao som do ditirambo. Seus cabelos soltos, avermelhados, se agitavam, flutuavam sob efeito de movimentos de dança que nunca cessavam. Seus lábios carnudos sorriam eroticamente para um amante invisível que parecia estar em todos os lugares. E seus olhos flamejantes pareciam segui-lo loucamente enquanto dançava.
Zero olhava para a mulher contidamente. Cada nanotech que agora compunha sua consciência, seu wetware, buscava exaustivamente catalogar aquela singularidade. Não era um programa. Não havia artificialidade nela. Não havia lógica nem preditibilidade em seus movimentos. Os nanos buscavam determinar os padrões de sua dança, mas eram surpreendidos por novos movimentos, movimentos nunca antes vistos, combinações jamais realizadas. Sua dança, sua existência, toda ela, era puro improviso, pura singularidade. Não existia ali padrão, nem repetição.
Não poderia sair dali. Sua curiosidade, e a incansável busca dos nanotechs por determinação de padrões, os prendiam àquele corpo indomável, que era, em toda a acepção da palavra, pura liberdade. Estava diante dele uma pura realidade, uma pura novidade, um sagrado acaso, que desafiava toda a existência determinista da hypernet. No seio da pura programação, da pura causalidade, havia o total incondicionado. Havia o Não, havia o Nada, o Nenhum.
“Venha, meu amado! Eu estava te esperando. Venha dançar comigo a mais velha dança. A mais antiga dança do cosmo, ao som do seu mais velho som” – a mulher disse para Zero. Sua voz era aterradora em sua sensualidade. Sentiu as pernas amolecerem enquanto um fluxo de cegueira o tomou.
“A-histórico! A-histórico” – ouviu em sua mente a voz incessante dos nanotechs – “Um fluxo de a-historicidade percorre toda nossa existência. É a ausência de causalidade, a falta de encadeamento entre os momentos que causa isso. Quem é ela?”
Como que ouvindo a indagação dos nanotechs, a mulher respondeu: “Eu sou a Imperatriz. Meu nome é Devir. Sou sacerdotisa e prostituta. Sou grávida do futuro. Grávida de Dionísio, o senhor desses ditirambos. Você é Dionísio. E você também deve me dar um filho. Deve ser um filho. Venha a mim em volúpia. Venha comigo para o além insondável. Venha beijar meus seios e tocar minha pele. Venha arranhar sua pele fina de Lei em minha carne grossa de Acaso. Penetre minha vulva, entre com seu cetro em minha taça. Eu sou um portal, e trago a transformação. Venha se transrealizar em minha carne, repleta de lascívia, luxúria e libertação”.
Havia uma atração irresistível. Assim como seu destino o atraíra inevitavelmente para os nanotechs como um complemento à sua existência, agora o novo composto tecnorgânico que era ele e os nanotechs se sentiam estruturalmente, onticamente e ontologicamente a se unirem alquimicamente a essa mulher escarlate. Não havia como resistir, e tampouco havia o desejo de fazê-lo. Ao contrário, os nanotechs concluíram que se unir ao homem, ao fundir o carbono orgânico com o silício inorgânico, estavam cumprindo uma etapa evolutiva do cosmo. Agora, sentia que unir esse novo composto à Devir, ao acaso, estavam cumprindo outra etapa.   
Ela se aproximou de seu avatar e tocou seu ombro com o braço esquerdo esticado. Eletricidade foi provocada. Cada elétron se agitou em um fluxo de êxtase. Sabia naquele momento que, embora ele fosse um avatar, ela não o era. E, onde ela o tocava, ele também deixava de sê-lo. Seu toque o transmutava. Mesmo na forma de pacotes de bits, ele ainda era uma forma midiática. Sua forma física emulada na rede era ainda uma mediação. Mas o toque da mulher o transmutava.
Ela o puxou para si e, antes que seus lábios se tocassem, sentiu o ventre dela tocar o seu. Sentia a imensidade de possíveis pulsando em seu interior, ávidos para serem paridos. Estava grávida de sonhos, e dançava ao som de delírios. Quando se beijaram, sentiu a língua dela invadir seu interior. Uma língua que penetrou por toda sua boca, levando êxtase e desejo, e insuflando-o de uma saliva que causava curto-circuito em toda sua integração. Antimatéria. Anti-ser. Não-Ser. Ela era do Abismo, e era feita de antimatéria. Enquanto a beijava, ela o tocou e o afagou. Afastando-se levemente, disse:
“Sinto o poder do acaso dionisíaco, a beleza orgiástica de Pangenetor surgir em você. Venha, sugue meus seios, e seja insuflado da loucura”
Zero tocou os seios da mulher. Grandes pela gravidez, envolveu com seus lábios os mamilos intumescidos de prazer e os sugou. Ouviu um gemido frenético da mulher escarlate, ao mesmo tempo em que sua garganta recebeu o leite que jorrou aos montes de seu seio: sangue, vinho, metal. Não sabia dizer. Era todas as coisas e nenhuma delas, e o conduziu a um estado de delírio. Sentiu-se como quando inseriu os nanotechs em seu corpo, mas agora era um jorro de átomos invertidos. Elétrons no centro e prótons girando loucamente, tocando seus átomos transmodais, alterando-os, transformando-o em algo...
Imagens saltavam em sua mente. Olhou para a mulher de cabelos vermelhos e cintilantes como sangue. Via atrás dela outras imagens. Homens de uma era distante, quando as palavras não existiam. Dois deles, diferentes, com olhos indagadores, contemplando águas sombrias, e mergulhando em símbolos traçados com sangue no chão agreste. Em uma era sem Logos, somente os grifos simbólicos podiam ser usados para chegar ao Ponto Cego. Eles caem no Abismo e hoje são Ela. Um Faraó jovem e sua irmã menina, deitados em sarcófagos abertos, de mãos dadas, em uma prece ancestral, clamam por Tífon e seu amado filho Set, contemplando, com olhar vítreo, o topo da Pirâmide se abrir para o céu escuro. As estrelas de Órion alinhadas, e logo um túnel celeste, um “buraco de minhoca cósmica” traga os dois, em wetwares arcanos, de encontro ao Abismo dos Céus, e aos Braços Dela. Duas mulheres, irmãs da Ilha de Lezbos, pálidas diante da Grande Caverna. “Equidna, Equidna. Sagrada e Pavorosa Mãe, abra seus portões”, são as vozes em uníssono, em um canto grego de bela e dissonante desarmonia. Elas se beijam e  mergulham Nela. Um dirigível em chamas. Uma obra do Acaso, uma obra Dela. Poderosas e baixas freqüências de eletricidade, tão baixas que tocam o Abismo, e duas irmãs, em uma queda em Chamas Magnéticas, olham para ele em desespero. “Illiana, olhe aquilo. Estou ficando louca?”, dizia a mais jovem para a outra, que estava caída diante dos controles do dirigível. “Também estou vendo, Ivich. Um homem e uma mulher. Mas são tão... sagrados.” A Mulher em seus braços sorria para as duas. E viu a si mesmo sorrir também. Ele era parte da Mulher. “Venham” – Ela disse – “Vocês já são Nós”. E viu as duas atravessarem o Abismo, e amarem a Ela. As imagens e percepções começaram a se suceder rapidamente. Percebeu, então, que não eram imagens, mas realidades além do tempo e do espaço, todas ocorrendo perpetuamente ao mesmo tempo. Todos Nela, absorvidos por Ela, incluindo ele.
 Os gritos da mulher se somavam aos tambores, aos cantos loucos e a seus próprios gritos, enquanto sua coluna doía. Sentia como se uma extensão, um apêndice de sua coluna, se projetasse cada vez mais febril, como os guizos de uma serpente, guizos que penetravam uma colméia encharcada de mel. A mulher dançava, e ria, e gritava. Ela o cavalgava como a um animal selvagem, cravava suas unhas em sua carne e o rasgava. Ele gritava e a serpente penetrava com mais força a colméia. E ela o puxava ainda mais. Sua visão estava nublada por mil prismas de realidade.  Uma transmutação se alterava. Um Casamento Químico acontecia. A eletricidade circulava por seu corpo. Íons berravam em atritos insanos com elétrons. Átomos de silício se fundiam com carbono. Ambos vibravam enquanto a prostituta abria mais as pernas para receber a essência do futuro. Enquanto o impregnava com sua anti-vida.
Ouviu um berro! Era o êxtase Supremo. Sentiu a si mesmo sair de si. Ainda olhou, extático, a mulher dançando e chupando a cauda de uma gigantesca serpente que, em transe, cantava um ditirambo:
Oh, amada Imperatriz de minha alma, que
Meu corpo inflama em chama insana!
Que desejo me toma a mente
A ânsia de possuir teu corpo com volúpia ardente!
Quero contigo queimar, teus seios sugar,
Com fúria penetrar tua rosa profana
E contigo morrer mil vezes
A morte do gozo sagrado
E evanescente!

Ele era a Serpente. E já não estava na rede. Não havia mais hypernet. E havia. Olhou para trás de si, e viu um fino ponto de luz. Olhou para todo o redor, e via o universo. E o universo era a Rede. E a Rede o Universo. E não havia separação. Então, em um adeus à luz, disse: “Há estrelas aqui! Eu sou um com Devir!”.

sábado, 5 de março de 2011

Ponto Cego - Parte 3

Parte 3 
“Isso é muito proficiente, Zero” , “Não se preocupe. O processo é indolor. Estamos absorvendo cada átomo de seu cérebro, Zero, e tornando-os independentes de sua carne”, “Corpo sem Órgãos, Zero, esse é o caminho. Esse é o novo hiperrealismo da evolução humana”.
Essas e muitas outras vozes, todas simultâneas ecoavam por todos os lados, eram onipresentes em sua existência, enquanto ele se sentia ser descolado de seu corpo. Era uma mentira terrível o que haviam dito sobre a dor. Ele sentia dor, sim. E era insuportável. Cada fragmento de “eu” era subsumido, enquanto seus átomos fundamentais, que, em seu conjunto, continham tudo o que ele era, se fundiam a nanotechs. Naqueles momentos eternos, cada átomo seu tornou-se apenas metade de uma fórmula, cuja outra metade era um nanotech que se fundia violentamente.
Enquanto isso, Zed aplicava uma injeção de adrenalina para compensar uma forte oscilação cardíaca. O choque poderia fazer o coração explodir. Na mesma medida em que os nanotechs se unificavam com os átomos de Zero, os mesmo eram transferidos para a Hypernet, se alojando em um avatar criado como um arquivo da rede. “Deus” – Zed, leu a inscrição que apareceu na tela – “A dor é terrível! Vou enlouquecer! Vou enlouquecer!”. Não havia nada a fazer. Da parte de Zed, tudo o que poderia ser feito seria estabilizar o corpo de seu irmão e tentar manter sua integridade.
Zero sentia sua consciência dividida. Não pensou que isso fosse acontecer. Acreditava que a transferência de seu ego digital fosse feita instantaneamente, e não do modo como foi feita. Estava sendo enviado para a rede em partes. Sentia cada cisão provocada pelos nanos, sentia-se violado em cada partícula de seu ser. E as vozes não paravam: “Aguarde, Zero! A configuração humana é surpreendente. Sua consciência não existe em um ponto conhecido de seu cérebro, ela encontra-se fragmentada, espalhada por todo seu corpo. Mas não se preocupe. A cada instante nós destacamos mais e mais de seu ‘eu’ do seu corpo. Seu wetware está sendo construído. Logo você poderá caminhar pela rede. A dor é libertação. Libertação de seu corpo. Mas não poderemos, ainda, separá-lo totalmente de seu corpo, Zero. Estamos extraindo as energias necessárias para a inicialização do construto digital. Corpo sem Órgãos, Zero. Corpo perfeito, eternamente belo e perfeito”.
Apesar da dor insuportável, os nanotechs cumpriram o prometido. Após uma pequena eternidade, Zero percebeu-se como um construto na rede. Olhava para adiante de si, e via uma infinidade de prédios, enormes construtos que se erigiam e altitudes inimagináveis, construtos de dados. Acima de si via um céu vermelho, com miríades de formas geométricas perfeitas, em permanente estado de trânsito. Dados móveis, trafegando entre modems e provedores de acesso.
Mas ainda sentia seu corpo. E ainda sentia dor, mas era menos do que antes. E diminuía cada vez que recebia novo pacote de dados em sua integração. Resolveu mandar nova mensagem para o irmão, tranqüilizando-o.
***
“Zed! Estou bem” – foi a mensagem que apareceu na tela. Zed estava suando por todos os poros. Lutava para manter o irmão vivo. Por uns instantes, o coração de Zero havia parado. Estava tentando mantê-lo vivo quando recebeu a primeira mensagem, que em nada o tranqüilizou. Pensou na tolice de tudo aquilo, e de como tudo dera errado. Era óbvio que daria errado. Tudo o que tinham nãos mãos era uma teoria. E a probabilidade de uma série de coisas acontecerem de modo imprevisto eram imensas. Não acreditava em sua idiotice em aceitar trabalhar com seu irmão nessa empreitada. E agora Zero poderia morrer em suas mãos.
Porém, depois de todos esses angustiados momentos, os sinais de Zero se estabilizaram, e logo surgiria a mensagem de Zero dizendo que estava bem.
“Zero, você pode me ouvir pelo microfone? “ – perguntou, olhando para o monitor, esperando a resposta surgir na tela. Surpreendeu-se ao ouvir uma voz chiada e digitalizada soar pelos auto-falantes: “Sim, Zed. Já identifiquei o IP de minha rede de computadores e regulei a comunicação. Poderemos conversar a partir daqui. É maravilhoso, Zed! Maravilhoso. Mas eu preciso de ajuda. Existem colunas gigantescas de dados aqui. Todos se erguem como edifícios monumentais. Não pensei que meu avatar digital seria tão pequeno no interior da rede. Sinto-me uma formiga em meio a um fluxo tão gigantesco de informações”.
“Minha nossa, Zero! Por Santa Sara! Não posso acreditar nisso. Deu certo! Deu certo! O que faremos agora? Se tudo é tão imenso, como você vai chegar até o ponto cego?” – disse Zed, em um misto de assombro e excitação.
“Calma, Zed! Agora você deve ir até o quarto dos terminais. Lá, você poderá identificar onde eu me encontro em relação ao ponto cego. Segundo minhas orientações, os nanotechs deveriam me colocar a uma distância segura do ponto de atração do ponto cego, mas não muito longe dele. Só preciso das coordenadas”.
Zed foi até o quarto e logo identificou o irmão como um pequeno ponto vermelho na tela. Um pequeno ponto em uma imensidão de pontos verdes. Uma torrente de dados se avolumava ao redor daquele ponto negro. E, na periferia de tudo aquilo, estava aquele pequeno ponto vermelho, que era seu irmão. Pouco a pouco ele foi passando coordenadas, instruindo por caminhos e rotas de tráfego. Mesmo assim, a travessia de Zero tomaria horas para que este se aproximasse do limiar da Rede.
***
Recebera as coordenadas do irmão, mas onde ele estava? Como se locomover? Olhou para si mesmo. Não era de carne e osso. Nem poderia. Estava em seu wetware, seu corpo líquido. Tocava em si mesmo e sentia-se molhado, prateado e cristalino. A dor que sentia era ainda a dor da separação. Mas conseguia identificar essa dor essencial de sua condição existencial, agora perfeita e impressionante. Logo percebeu que o conceito de solidez aqui não se aplicaria a ele. Os dados eram sólidos, as informações eram sólidas. Toda a existência aqui era fria e de perfeição matemática. Mas ele era algo diferente. Havia se tornado um ser tecnorgânico. Não era apenas uma imagem virtual. Não era apenas um pacote de dados. Seus átomos estavam ali, mesclados irremediavelmente aos nanotechs. Ele estava realmente ali. Não era uma projeção. Assim, percebeu também que sua própria consciência começava a mudar na medida em que adquiria consciência do quê havia se tornado. Percebeu que caminhar era um conceito que necessitaria ser revisto aqui. “Pois os sólidos são apenas ilusões. Tudo aqui está em fluxo. Inclusive nós” – ouvia os nanotechs, mas já os ouvia como seus próprios pensamentos. “Apenas se lance na direção indicada. E lá seu wetware estará”. E assim o fez. E se lançou na primeira torrente de dados. Sentiu-se mover vertiginosamente a uma velocidade inconcebível. Viu todas as coisas como mero borrão. Viu os edifícios e os objetos tridimensionais, outrora tão sólidos, desfazerem-se e liquefazerem-se diante de seus olhos. Só então compreendeu. Não há sólidos, é tudo uma questão de perspectiva.
Todavia, algo o incomodava. Quanto mais se dirigia para as regiões indicadas por seu irmão, mais se sentia fraco, instável. “Energia” – diziam os nanos – “É necessário reunir mais átomos. A velocidade, o deslocamento contínuo cria um paradoxo com seu corpo físico. É necessário reunir todas as partes de sua consciência, para que não nos dissipemos!”. E assim, sentia novo fluxo de dados, o que o fortalecia para prosseguir.
***
Acompanhava atenciosamente toda a trajetória de Zero. O pequeno ponto vermelho se movia rapidamente pela densa massa esverdeada que se avolumava nos monitores. Mas estava preocupado. A princípio, Zero esboçava um senso de direção e objetividade mais claros. Agora ele parecia estranhamente disperso e cansado. Mas estava quase chegando ao ponto cego.
“Zero, está tudo bem? Você está seguindo bem a orientação. Está no quadrante certo. Dentro de dez minutos você estará no raio de reentrância do ponto cego. Não quer parar um pouco pra descansar? Você parece cansado” – tentava assim fazer com que o irmão conversasse.
“Não posso, Zed. Agora preciso intensificar minha velocidade para entrar no ponto cego. Eu já descobri, Zed. Há uma película, uma camada que não deixa o ponto cego se expandir. Mas eu preciso acelerar, Zed. Preciso. Evolução, Zed. Esse é o próximo passo. Mundo real e virtual vão se fundir, eu acho. Ou já estão fundidos? Seriam uma coisa só? Talvez, não é, Zed?”
Era muito preocupante o modo como a voz de Zero estava ecoando naquele recinto. Mais do que isso, era assustador. Resolveu que não deixaria o irmão ir adiante. Mas ele já estava quase chegando ao ponto de atração, o ponto de desvio no qual as informações que ali entrassem, acabariam por desaparecer no núcleo negro.
“Zero! Escute, cara. Você está viajando. Agora não é hora de especulações metafísicas, irmão. Pare onde está, volte um pouco. Você não pode prosseguir assim”. Todavia, tudo o que ouviu foi um chiado. Depois começou a ouvir murmúrios. Seu irmão balbuciava coisas ininteligíveis. Olhou para a tela e viu que o ponto vermelho estava se movendo muito rápido. Pegou o microfone e gritou: “Zero! Pare agora!”. Mas, em contrapartida, ele apenas ouviu, em uma voz metálica, fria: “Energia! É preciso mais energia. Mais consciência”.
Antes que pudesse fazer qualquer coisa, começou a sentir um cheiro forte que vinha da câmara ao lado. Saiu correndo do quarto e, ao chegar à sala, conteve um grito aterrador diante do que viu. O corpo de Zero estava cheio de bolhas, que cresciam e estouravam em seguida. Sua pele estava vermelha demais, com fortíssimas queimaduras. Tentou tocar o irmão, mas tamanha era a temperatura que queimou a mão com o líquido das bolhas.
“Zero! Puta que o pariu! Zero, você está queimando, cara. Volta, volta!” – berrava Zed no microfone. Mas tudo o que ouvia era: “Mais energia, mais átomos, integridade!”.
Olhou para Zero quando um grosso fio de fumaça começou a sair de sua carne, junto com um forte cheiro de carne queimada. Não houve mais o que fazer. O corpo explodiu em chamas. Labaredas incendiaram todo o corpo de Zero, enquanto Zed procurava um extintor para apagar as chamas. Gritando o nome do irmão, entre lágrimas, Zed apagou as chamas com as borrifadas do extintor de incêndios, mas tudo o que restou foi um corpo, negro e carbonizado, colado a uma cadeira igualmente torrada. Cheiro de carne queimada enchia as narinas de Zed que, sem forças, entre choro e nojo, caiu sentado, em choque, ao lado da cadeira. Ficou nesse estado por muito tempo, sem saber ao certo o que fazer, sem entender ainda o absurdo da situação. Só depois de um longo período um pequeno ruído de mensagem começou a chegar a seus ouvidos. Há quanto tempo ela estava ali não sabia dizer. No quarto ao lado, todos os monitores transmitiam uma única mensagem. Uma frase deixada por seu irmão. Ao lê-la, Zed soube que Zero estava vivo, que ele havia penetrado o ponto cego. Mas, o que poderia significar aquelas palavras? Naquele quarto, um homem infinitamente solitário, era banhado por luzes verdes que revelavam um mistério. Em cada monitor, a frase: “Há estrelas aqui! Eu sou Um com Devir!”
***

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Ponto Cego - Parte 2


Parte 2
Havia pensado em tudo. Durante nove anos trabalhara na Overnet. Fora uma longa escalada. Alexander Toombs, vulgo Zero, conseguiu entrar na empresa aos vinte e um anos, após realizar uma série de testes e ser aprovado em todos com louvor. Entrou em uma época em que a Overnet aceitava pessoas sem indicação, apenas demonstrando aptidão em uma exaustiva seqüência de testes. A empresa precisava de gênios, de pessoas capazes de ampliar os acessos à internet, de torná-la mais rápida, mais ampla e funcional. Era o nascimento da Hypernet.
Alexander recriou alguns dos principais backbones de acesso e reestruturou toda a sua história nos arquivos. Ninguém jamais saberia de sua origem cigana.
Enquanto os anos passaram, Zero foi se valendo de seus postos para adquirir informações e desviar recursos para criar um verdadeiro laboratório em seu apartamento.
Quando surgiu a tecnologia de neuroimplante, Toombs convenceu seus superiores de que ele seria uma excelente escolha para receber o chip de conexão Bluetooth. Como ele seria quase um backbone, porém receptivo, haveria muito mais eficiência nas pesquisas.
Agora, de posse dos nanotechs, o último estágio de sua busca aproxima-se do fim. Uma viagem de negócios falsamente planejada permitirá uma janela de três dias nos quais ele poderá realizar sua experiência. Em três dias, Zero pretende encontrar o ponto-cego, a zona fantasma, que subjaz a toda rede, descobrir o que há lá, e retornar para o seu corpo.
No entanto, há cerca de vinte minutos ele encontra-se inerte, pensativo e melancólico diante de todos os instrumentos. Ele tomou o frasco nas mãos. Um olhar soturno contemplou o líquido prateado no interior do invólucro hermeticamente selado. Havia algo de inquietante naquilo. Bilhões de nanorrobôs olhavam para ele. “Quando se olha para o abismo – pensou – o abismo te olha de volta!”
Estava olhando para bilhões de olhos que o olhavam de volta, sentindo uma vibração que parecia uma estática, um tipo de não-riso perturbador. E, em pouco tempo, todos eles estariam dentro de seu cérebro.
***
Zed era um gênio. Nascido em meio aos cyber-magiares, cresceu em um misto de cultura ancestral mesclada a uma obsessão por tecnologia. Qualquer tecnologia. Entre os ciganos, haviam ciborgues de todos os tipos, com uma mistura quase obscena de aparatos de todas as épocas, exoticamente combinando e funcionando.
Quando o Setor de Mercados ficou pronto, foi declarado como marginal qualquer atividade comercial que não fosse mediada por eles. No mesmo período, foi aprovada a liminar que tornava proibido o uso de qualquer tecnologia não catalogada pela Neotech Co.
Assim, os Cyber-Magiares, que já não eram bem-vindos na Cidade Vertical por seu nomadismo, se tornaram duplamente marginais, pois eram mercadores independentes e toda sua tecnologia era adulterada e não corporativa.
Foi nesse período, quando Zed tinha dezessete anos, que Zero ingressou na Overnet. Só posteriormente haveria uma perseguição mais ostensiva aos ciganos, o que permitiu a entrada de Zero no setor mainstream. Os dois irmão trabalharam juntos na criação do Vault. Com acesso irrestrito à internet, Zero passava as freqüências dos satélites de varredura do Grande Olho, a polícia da Cidade Vertical, enquanto Zed desenvolvia o sistema de embaralhamento. O software necessário foi todo criado por Zed, enquanto os sensores de desvio foram desenvolvidos por Mac, o irlandês paranóico.
Sistemas de ocultamento se tornariam a especialidade de Zed. Ele poderia circular pelo Vault o dia todo sem que ninguém o visse. Um verdadeiro camaleão que se tornaria vital para as atividades dos cyber-magiares após as proibições corporativas. Porém, desde o incidente com os nanotechs, o rosto de Zed se tornou conhecido pelo Grande Olho. Por isso, foi somente graças a seus talentos em programas de ocultamento e indutores de imagem que Zed conseguira chegar discretamente até o setor residencial. O Grande Olho estava em todos os lugares. Satélites, câmeras, olheiros e um banco de dados complexo faziam da Cidade Vertical uma enorme torre vigiada.
O Setor Residencial era obviamente vigiado. Mas a Ala 11, a parte residencial exclusiva para os altos funcionários corporativos, como Alexander, era ainda mais vigiado.
Nas dez alas que antecederam a esta, Zed se valeu de um indutor de imagens. Esse recurso consumia menos de seus sistemas, pois não precisava esconder seu corpo , apenas aplicar sobre ele uma outra forma. Mas as câmeras flutuantes e os sensores múltiplos não permitiriam o uso do indutor de imagens. Cada pessoa que entra na Ala 11 é abordada pelas câmeras flutuantes e por uma série de sensores móveis que buscam identificar o visitante e checar sua veracidade. Se fizessem isso, descobririam o engodo. Na Ala 11, só mesmo sendo invisível.
A travessia até o apartamento de Zero não fora longa, mas foi lenta e angustiante. Mesmo oculto Zed tinha de evitar esbarrar em qualquer coisa. Teve de tirar os sapatos e andar descalço para que os sons dos passos não denunciassem sua presença. Ao chegar ao prédio, teve de aguardar vinte minutos até que um carro se aproximasse da garagem para entrar sorrateiro atrás. E, por fim, teve de subir dez lances de escada de serviço para não ter de usar o elevador e ser detectado pelas câmeras.
Ao chegar no apartamento do irmão, já se havia esgotado sua paciência. E ainda havia a possibilidade de ter chegado muito tarde.
Bateu na porta com força, impaciente, rogando que o irmão não tivesse começado a experiência.

***

Olhava para o pequeno frasco quando uma batida nervosa tirou sua concentração. Com um sorriso malicioso, recolocou o frasco no lugar e dirigiu-se até a porta. Ao abrir, sorriu para o corredor vazio e tremeluzente, dizendo:
“Você demorou...”
Fechou a porta atrás de si e viu Zed se materializando e sentado em uma poltrona:
“Água! Subir dez lances de escada cansa, sabia?”
“Não” – disse Zero, zombando – “Eu geralmente uso o elevador”.
Enquanto Zero pegava água em um frigobar na cozinha, Zed se recompunha, olhando irritado para irmão:
“Você Sabia que eu viria, não é?”
Zero entregou o copo com água para Zed, que bebeu compulsivamente.
“Estava contando com isso. O ponto-cego sempre te intrigou, embora você não reconhecesse do mesmo modo que eu. Não poderia deixar que eu descobrisse sozinho, e nem eu queria fazer isso sem você como testemunha... e auxiliar”.
“Não, Zero. Não foi pra isso que eu vim. Não há nada para descobrir. A Hypernet não é mais do que um fluxo de dados, de informações que nós colocamos lá”.
“Exato, Zed” – Zero colocava o copo na pia da cozinha. Voltou e sentou em outra poltrona – “Exato! Quando a Internet foi criada, em 1969, no auge da Guerra Fria, com o nome ARPANET, o objetivo era criar uma rede de comunicações onde cada computador, mesmo os backbones, as grandes espinhas dorsais do sistema, não eram mais do que um no que, se fosse destruído, não afetaria a Rede. A idéia era criar um campo de comunicação que permaneceria ativo mesmo após um devastador ataque nuclear. Nossas máquinas dão acesso à rede. Nós a enchemos de dados, criamos um fluxo de informações que, como você disse, colocamos lá. Mas eu te pergunto: onde é esse ? Se cada computador, cada provedor de acesso, cada mainframe é apenas um nó que, se destruído, não afeta a Rede, então eu pergunto, o que é a Rede? Os dados pertencem a nós, e os terminais nos permitem acessar os dados que colocamos lá e também a inserir mais dados. Mas onde fica esse espaço onde colocamos os dados? Onde está a estrada pela qual trafegam?”
Zed olhava para o irmão, que continuava falando calmamente. Já haviam falado sobre isso várias vezes, e ele já sabia onde iam chegar, mas agora, mais do que nunca, temia a conclusão.
 “A Rede, Zed, não são os computadores, não são os dados e informações que trafegam continuamente. Há uma terceira coisa, que nós não criamos, que já existia antes da ARPANET ser criada, e sem o qual nem seria possível criá-la”.
“Uma outra dimensão, você vai dizer!” – atalhou Zed, já impaciente – “Você já disse isso antes, e é só uma teoria. Não há provas. Nem uma evidência sequer...”
“Errado! Venha comigo!” – Zero levantou de sua poltrona e levou Zed até um conjunto de monitores. Zed olhou para a tela. Olhando-se para os cinco monitores, o que se via era um fluxo interminável de zeros e uns.
“Zero” – disse Zed – “são códigos binários. Fluxos de dados. Que evidências há nisso?”
Zero olhou para o irmão: “Eu vou te mostrar uma evidência. Está vendo esse zero tatuado em minha testa? Ele não está aí à toa. É zero por causa de um ponto na rede, um ponto-cego, uma nulidade real por trás de cada dado posto na rede. Anos atrás, eu estava seguindo uma informação pela net. Acompanhava cada terminal onde ela passava. De repente, ela sumiu. O código desapareceu, mas deixou algo como uma sombra, um tremular”.
“Espere aí!” – olhou-o Zed – “Esse tremular foi como o efeito provocado por nosso ocultamento? Como o Vault?”
“Exato! Se uma pessoa entrar no Vault, ela irá sumir. Mas uma observação atenta como a nossa, Zed, é capaz de perceber que ela ainda está lá, mas diferente. Está lá como um ponto-cego, como um zero, mas não como um nada!”
“Bem, e o que aconteceu depois?” – indagou Zed, já cortando um possível discurso científico do irmão.
“Depois? Eu fiquei aturdido com aquilo. Mas segui o fantasma da informação o quanto pude e, súbito, ela apareceu novamente. E continuou seguindo sua rota. Eu percebi, depois disso, que qualquer dado na rede, quando acompanhado em sua rota, passa por uma zona fantasma e some, reaparecendo depois. Mas a coisa só pôde ficar mais clara quando eu implantei o chip de acesso contínuo. Com ele eu pude fazer um mapeamento de uma parcela ínfima da rede, por onde circulam dados por 24 horas. O mapeamento está nesses cinco terminais. Quer ver o ponto-cego?”
“Você está dizendo que passa 24 horas por dia verificando todas as informações que passam em um certo ponto da rede? E, quando chega nesse ponto...”
“Todas elas somem!” – atalhou Zero – “Olhando para as telas, tudo o que você vê são dados convertidos em pacotes binários. Mas isso é questão de perspectiva. Quando eu me distancio, apreendendo um fluxo mais amplo, veja o que acontece...”
Zed olhava para as telas. Via ali a herança estilística retro dos cyber-magiares. Monitores monocromáticos que revelavam fluxos de códigos binários verdes fluorescentes em um fundo preto. A princípio via os números descendo na tela ordenadamente em fileiras de seis dígitos. Pouco a pouco, os números foram ficando menores, na medida em que mais fileiras preenchiam os monitores. Logo, os números se converteram em linhas verdes que subiam como ondas pelas telas. Enfim, nem mesmo linhas, mas apenas uma faixa maciça esverdeada corria pela tela.
Então, ele viu. Quando tudo o que se podia ver era uma luminescência verde estampada em seus rostos, ele viu, atônito, uma massa de espaço preto surgir como uma cratera, um buraco negro impenetrável em seu negrume, uma ilha que recebe os fluxos de dados como ondas. E esses dados desapareciam sempre que penetravam naquela massa. Então, os monitores voltaram a apresentar o fluxo contínuo de números novamente.
“Não pode ser...” – murmurou Zed.
“Acredita em mim agora?”

***
“Muito bem! O que você pretende fazer? Qual será o procedimento? – indagou Zed.
Zero estava esterilizando uma seringa prateada. Vestia uma camisa branca sem gravata e uma calça social preta com as mangas dobradas. Enquanto preparava os instrumentos, disse:
“Aquilo que você viu é o máximo que eu pude mapear. São muitas informações para o chip de conexão. A idéia é você inserir os nanotechs a partir do chip. Eu alterei a programação deles e os nanos estarão prontos para se fundirem ao meu neocórtex cerebral, preservar minha mente em pacotes de dados controlados pela minha vontade. Então, utilizarei a conexão do chip Blue Tooth para me inserir na rede. A partir desse ponto, você terá de me orientar, Zed. Uma vez lá dentro, posso me perder no fluxo”.
Não havia mais o que dizer. Os procedimentos foram seguidos, e o momento chegara. Zero sentou-se na cadeira em frente ao terminal central. Uma série de trodos foram fixados em seu corpo para monitorar seu organismo. Todas as medições eram indicadas no terminal. Zed tomou a seringa e introduziu o frasco com os nanotechs. Ouviu um leve ruído de pressão e soube que os nanos estavam prontos para a infusão. Aproximou-se de Zero, seringa em punho:
“Feche os olhos, Zero...”

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ponto Cego - Parte 1


Em algum ponto do Setor 7, o grande Lixão da Cidade Vertical, fica o Vault, um verdadeiro comboio de Cyber-Magiares que, sabe-se lá como, gera um constante campo de ocultamento, o que torna impossível detectar o numeroso clã de nômades por quaisquer tecnologias que sejam. Nem mesmo os poderosos satélites dos Staccato são capazes de localizá-los. O mais próximo que conseguiram foi demarcar uma vibração de ponto-cego em algum ponto norte da circunferência limite, mas nada além de sucata foi encontrado no local.
Sendo assim, foi com grande espanto e alarde que Tink reparou o estranho e solitário indivíduo parado há cerca de 300 metros do Vault, ao mesmo tempo em que um e-mail chegava com a mensagem: “Deixe-me entrar. Tenho negócios a tratar. Zero”.
“Mas que merda acontecendo aqui?” – vociferava Tink, enquanto alertava Celina e Cochrane sobre o intruso e o furo no sistema.
Logo, o rosto de Celina apareceu no holocubo: “Tink, já verifiquei o intruso. É Zero, o irmão de Zed. Deixe-o entrar!”
A imagem sumiu antes que Tink pudesse considerar questionar. E o tom de gravidade na voz de Celina era autoritário e incisivo o suficiente para que ele pudesse cogitar não obedecer.
Girou sua cadeira em direção ao monitor que captava a imagem de Zero. Emitiu um comando mental a partir do plugue em seu pescoço que o conectava ao sistema para abrir uma pequena escotilha, e que sobre esta não incidisse o campo de ocultamento, de modo que o visitante pudesse ver a pequena rampa de acesso, embora se questionasse se Zero não estaria vendo o Vault inteiro.
Com um segundo pensamento, viu a imagem de Zero se ampliar no monitor. Avistou um rosto bem barbeado , pele branca, cabelos pretos, lisos e curtos, com olhos ocultos por um óculos escuros e uma expressão impassível, imóvel.
Um terceiro pensamento-comando, e uma tela lateral iniciou uma varredura sobre aquele rosto.
“O quê? Mas que miserável!” – exclamou Tink ao ver a ficha de Zero, desplugando-se do Sistema e se levantando para encontrar-se com Celina, quando a porta eletrônica de sua câmara se abriu, e uma voz característica adentrou o local:
“Nem pense, Tink! Você nem deveria ter acessado o sistema para saber sobre ele” – a frase, entrecortada, revelou a presença de Cochrane, com sua voz grave e severa e sua típica expressão de censura mal-humorada no rosto com dois buracos no lugar dos olhos. A frieza dos olhos digitais ultrapassados só servia para aumentar a austeridade do cigano.
“Mas, Cochrane...” – Tink tentou se recompor – “Esse tal de Zero é conhecido por Alexander Toombs na Rede, um dos maiorais da rede de pesquisas da Overnet. O cara trabalha para os Staccato!”
“E daí, Tink! Não precisava pesquisar isso na Rede. Era só perguntar. Além do mais, quem não está na folha de pagamento dos Staccato, além dos nômades? Não é o que está na Rede que importa, mas sim o que não está registrado lá. Alexander é irmão de Zed. Não sei por que ele veio, mas não há motivos para desconfiança... ainda.”
“Sei” – disse Tink, desconfiado, enquanto andava na direção da escotilha aberta para Zero – “Mas o cara é da Overnet! Se tem alguém que pode ter descoberto que nós ainda temos os dados sobre os nanotechs roubados e que estamos vendendo essas informações para interessados, é ele. E se ele nos entregou para os Staccato?”
Cochrane segurou o ombro de Tink e o virou em sua direção, com olhar ameaçador:
“Olhe bem pra mim, Tink! Alexander seguiu o rumo dele, mas ele é um romani, assim como Zed. Ele é nosso sangue e nós vamos recebê-lo sem desconfiança, está entendendo?”
A discussão terminou ali. Cochrane tomou a dianteira e Tink seguiu em silêncio, pouco atrás. Ainda desconfiava, mas os laços de sangue eram mais fortes. Iria confiar no intruso... até que ele se revelasse um intruso.

***

“Você quer o quê?” – disse Celina, levantando-se de sua poltrona.
Sem demonstrar perturbação alguma, o homem de sobretudo bege e óculos escuro apenas reiterou calmamente o que havia dito antes:
“Quero a amostra de nanotechs que vocês roubaram dos Staccato, Celina”.
A mulher se inclinava diante de Zero como uma serpente ameaçadora, prestes a dar um bote fatal. Seus olhos faiscavam, antecipando um conflito.
“Se acalme, Celina” – interveio Cochrane – “Como você sabe que fomos nós, Zero?”
“Bem, vocês sabem de minha posição privilegiada na Overnet. Quando soube do roubo, imaginei que fossem vocês. Bastou criar um vetor de varredura na Rede por comunicações em subsistemas e logo encontrei essas mensagens. Aliás, elas não estavam muito bem criptografadas. Quem anda cuidando dessas coisas por aqui?
“Eu” – disse Tink, com jeito contrariado – “Mas a intenção não era criar algo hermético, que ninguém pudesse acessar. Era divulgar os códigos sem chamar atenção. Além disso, mesmo com um vetor de varreduras, seria necessário alguém 24 horas conectado à Hypernet, e nem com os trodos, nem com os plugues isso seria possível sem criar uma tormenta daquelas na cabeça”.
“Não no meu caso” – disse Zero – “Eu estou sempre conectado à Rede. A Overnet implantou um chip de conexão Bluetooth em meu neocórtex, mais especificamente aqui” – falou, apontando para uma pequena tatuagem em fora de zero em sua testa – “A tatuagem foi feita para ocultar a pequena cicatriz. Foi assim que localizei onde vocês estavam. Uma vez descoberto o sinal, segui-o ininterruptamente até a origem”.
“Uau!” - disse Tink – “Um chip de conexão! Cara, isso é demais! Como consigo um desses?”
“Tudo depende” – disse Zero, retirando os óculos e fitando Celina – “Vocês poderão ter isso e muito mais se eu tiver os nanos”.
“O que você pretende, Zero?” – Celina se inclinou em sua direção – “Vai devolver isso para aquela branquela Staccato?”
 “Não... isso é para uso pessoal. Tenho um projeto que só pode ir adiante se eu tiver acesso à nanotecnologia”.
“Zero” – disse Cochrane , olhando para Celina – “Se nós resolvermos negociar com você, o que nós ganhamos?”
“Bem, toda a tecnologia que necessitarem e que eu tiver acesso, o que não é pouca coisa. E mais: eu posso garantir que jamais vocês ou qualquer nômade seja rastreado por qualquer sistema dependente ou mesmo levemente vinculado com a Hypernet. Ou seja, todos os sistemas oficiais e grande parte dos clandestinos da Cidade Vertical serão absolutamente incapacitados de encontrar vocês, sem nenhuma possibilidade de falha. Quanto aos códigos para replicação nanotecnológica, isso não me interessa. Os lucros podem ficar com vocês. Tudo o que quero é a amostra de nanos roubados. E eles não serão devolvidos aos Staccato” – afirmou enfaticamente, recolocando os óculos enquanto olhava para Celina.
A um movimento de Cochrane, um pequeno monitor surgiu de um suporte lateral, enquanto uma voz com forte sotaque irlandês respondeu do outro lado:
“O que há, chefe? Já é o fim do mundo?”
“Não, Mac” – disse Cochrane – “você precisa parar de tomar esse mijo que chama de cerveja. Venha pra sala de reunião, e traga o pacote especial com você”.
“Certo” – disse o irlandês, colocando uma pesada gás mask no rosto – “então já é o fim do mundo mesmo”.

***

Zero já estava preparado para deixar o Vault. Todas as micro novidades eletrônicas já haviam sido conferidas pelos Cyber-Magiares, e o pequeno frasco já estava devidamente alojado em seu sobretudo. Essa negociação custou-lhe caro, mas a recompensa valeria os gastos e os riscos.
“Tudo certo, Cochrane?” – perguntou, ajeitando os óculos no nariz.
“Só mais uma coisa, Zero” – aproximou-se com a mão ciborgue apontando para o rosto de Zero – "Quero que você me jure, por seu sangue romani, que não vai usar isso contra seu povo”.
“Não, Cochrane. Eu não vou usar isso contra ninguém. Ao contrário, com essa tecnologia, eu vou abrir uma nova estrada para os nômades. Uma que nunca imaginamos trilhar”.
Antes que Cochrane fizesse qualquer indagação, o som de palmas chamou a atenção dos dois para a escotilha dos fundos do mega trailer. Uma silhueta encontrava-se encostada de perfil na porta aberta, permitindo apenas ver o contorno de um homem alto. Foi dessa silhueta que se ouviu a seguir:
“Parabéns, Zero! Então, você agora tem condições de levar a burrice aos limites do imaginável, não é?”
Ao ouvir a voz, Zero se dirigiu em direção ao homem que, por sua vez, fez o mesmo.
“Zed, seu canalha! Estava me perguntando onde você estava!” – disse Zero, abraçando o irmão.
“Fique tranqüilo, Cochrane” – disse Zed – “Esse idiota aqui não vai prejudicar nenhum de nós. Aliás, se ele sequer mencionasse seus planos para qualquer um da Overnet, eles o internariam sem direito a reintegração. O que, aliás, seria o melhor a fazer, em minha opinião”.
“Bem” – disse Cochrane – “então creio que encerramos aqui. Vocês dois parecem ter coisas a conversar. Até breve, Zero”.
Com uma breve despedida, os dois irmãos se afastaram do Vault, indo e direção ao veículo de Zero, um Allarde vermelho que se encontrava com o mesmo campo de ocultamento do comboio cigano.
***
“Eu não sou louco, Zed, e você sabe disso!” – disse Zero, em tom impassível, olhando para o irmão, que estava com o rosto vermelho e à beira de um ataque passional.
“Não é? Fazer um backup do próprio cérebro não parece loucura suficiente pra você? E depois? Vai fazer o que com a internet?” – esbravejava Zed.
“Não é Internet. Agora é Hypernet. E eu pretendo me lançar integralmente à Rede”.
“E isso não é loucura? É obsessão além dos limites o que você tem com a Internet, Zero. Não há nada lá além de dados. Já não basta esse chip de conexão? Agora você quer viver lá dentro?”
Estavam em frente ao Allarde, embora o mesmo não pudesse ser claramente visível. Zero estava encostado na porta, olhando o irmão se mover de um lado para outro. Diferente de Zero, Zed sempre fora passional e agressivo. Zero também possuía um grande grau de agressividade, porém era do tipo cerebral, e um constante buscador da velha arte da magia em meio aos paradigmas tecnológicos da modernidade. A cada toque de Zero no capô do carro, este se mostrava parcialmente visível.
Olhou para Zed, enquanto ponderava sobre suas próximas palavras. Puxou um maço de cigarros Yamauchi do bolso do sobretudo e acendeu. Só depois da primeira tragada olhou para o irmão:
“Eu encontrei, Zed. Consegui determinar o ponto-cego”.
Zed, que até então gesticulava e andava de um lado para outro, estancou palidamente diante do irmão. Quase sussurrando disse, meio que para si mesmo: “Não pode ser! O ponto-cego é só uma teoria... Ele...”
“Ele existe, Zed, como eu sempre afirmei” – assegurou o irmão – “É uma sombra, um fantasma de estática por trás da rede. Eu o identifiquei. Tenho me lançado nessa busca desde que fiz o neuroimplante. Porém, a rede é uma mediação. Se eu conseguir recriar minha matriz a partir de um avatar nanotecnológico na hypernet, poderei transcender as formas midiáticas e atingir o ponto-cego. Mas só posso fazer isso de dentro da rede. Tudo é muito impreciso do lado de fora”.
Zed olhou para o Vault, cujo sistema embaralhador criava apenas uma tremulação no horizonte. Não via o Vault, mas sabia que ele estava lá. Sabia que havia um enorme comboio ali, repleto de ciganos que misturavam tradição a uma ampla tecnologia. Mas aos olhos de qualquer sensor, mesmo aos olhos humanos, havia apenas isso: um borrão no horizonte. Seria possível que seu irmão tivesse encontrado algo semelhante no interior da Hypernet?
“Zero, se você vai mesmo fazer isso, então essa é a última vez que nos veremos? Isso é um adeus?”
“Bem, irmão” – disse Zero – “se tudo der certo, com certeza não será a última vez. Eu estarei integralmente na rede. E outra: há total reversibilidade no processo. Poderei entrar e sair quando quiser”.
Dizendo isso, estendeu a mão para o irmão, que retribuiu com um forte aperto, e seguiu para o interior do Allarde. Em um instante, o veículo era apenas outra estática tremeluzente no horizonte.
***

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Editorial: Cidade Vertical - Estrutura e Descrição


Bem vindos! Esse editorial vem no momento certo. Após conhecer a primeira história da Cidade Vertical, convém falar um pouco sobre esse lugar que é um caleidoscópio onde passado, presente, futuro e além parecem convergir em um momento de criação e de colapso. Antes de prosseguirmos com outras histórias sobre essa cidade, falemos um pouco sobre ela. Ao término, o leitor talvez conheça mais sobre a Cidade. Mas talvez fique a impressão que ela continua desconhecida. Como o aviso no início deste blog, os conteúdos são densos e pesados, mesmo proibidos para aqueles que não estão preparados para o futuro, tampouco para conhecer mais sobre a interioridade humana. Mas, falemos sobre a cidade.
A Cidade Vertical é uma megalópole construída em meio ao deserto em lugar nenhum. Trata-se de uma gigantesca torre de 10 andares, com um 11º sendo construído, mas ainda incompleto. Interligando os 10 setores, ou distritos, estão as autopistas, enormes estruturas que se erguem em espiral e que possuem duas vias, divididas em quatro faixas cada. Contos da Cidade Vertical trata-se de um projeto futurista que envolve uma série de conceitos considerados no momento em que vivemos, extrapolados para uma realidade futura possível: pós-humanismo, nanotecnologia, transculturalismo, robótica, cultura cyberpunk, gore, suspense e muitos outros elementos que geram um conjunto de ficção forte, uma atmosfera perturbadora e uma linha narrativa singular, errante, que caminha por fragmentos e descaminhos. 
 As estradas da Cidade Vertical correspondem a mais de 800 mil km, circundando externamente a cidade, formando, para quem olha de fora, uma enorme espiral rumo a um topo interminável. As autopistas possuem ramificações, levando às pistas que conectam as principais vias rumo às vicinais no interior de cada Setor. Além dos 10 Setores oficiais e do 11º em construção, existe ainda o Setor Fantasma, ou Limbo, um setor inteiro construído entre o 6º e o 7º setores, habitado pelos Desmortos, e evitado por quase todos na Cidade, por ser o único lugar onde o Olho que tudo vê do Estado não consegue penetrar. É também o único lugar sem energia elétrica na Cidade Vertical.
Setores – Descrição
  Conheça alguns dos Distritos da Cidade Vertical. Conforme as histórias forem se seguindo e novas matérias forem postadas, mais descrições de Setores serão postados:

Setor 1 – Lar e Complexo da Família Staccatto, uma família italiana que assumiu o controle administrativo da cidade em tempos passados. Cada membro da família controla ou influencia os setores ou as estruturas mais determinantes no andamento futuro da Cidade Vertical.
Setor 2 – Base dos Cães de Guarda, ou do chamado Olho que Tudo Vê. É a polícia da Cidade Vertical, mas também os guarda-costas da Família Staccatto. Embora sejam chamados de públicos ou guarda pública, a proteção do Olho que tudo vê é restrita às condições financeiras dos moradores e setores. É a extrapolação das Companhias de Segurança, que vinculam efetividade à pagamento.
Setor 3 – O setor médico. Toda a área de pesquisa e clínica e qualquer coisa envolvendo a área médica encontrava-se nesse setor. O extenso complexo da Neotech, indústria química responsável pela tecnologia clínica, encontra-se nesse setor.
Setor 5 – Ala Comercial. Todo o comércio e indústria se desenvolve nesse setor, desde comércio de luxo até o mercado negro.
Setor 7 – O Lixão, também conhecido como Zona de Despejo ou Depósito. Trata-se de uma região que, no passado, foi o topo da Cidade Vertical. Todavia, conforme a cidade foi se ampliando e novos andares foram sendo construídos, ela tornou-se um verdadeiro depósito de dejetos, tecnologia ultrapassada e todos os detritos industriais que derivam tanto dos andares superiores quanto dos setores 3 e 5. Por não dispor 100% da vigilância do Olho, esse Distrito tornou-se abrigo de párias e comunidades nômades, como os cyber-magiares.
Setor 10 – Setor Residencial. Todas as formas de habitação fixa na Cidade Vertical encontram-se nesse setor, tanto dos ricos como dos pobres e miseráveis, com exceção dos moradores do Limbo e os nômades.