domingo, 12 de junho de 2011

Epílogo


Epílogo
O que poderia prepará-lo para tal visão? Adentrara o ponto cego, atingira a zona fantasma da hypernet. E lá havia a visão mais espantosa que poderia contemplar em toda sua existência. A princípio, fora uma escuridão sem fim. Não havia comunicação com o exterior, nem sequer com o fluxo de dados da net. Não havia luz, não havia som, não havia chão sob seus pés, nem tampouco gravidade. Mas logo sentiu algo. Havia uma presença ali. Sentia uma vibração. Em seus ouvidos percebia, não um som, mas algo, uma espécie de estampido surdo que denunciava uma presença ali, uma presença que vibrava. Sentiu uma sensação muito próxima ao calor e viu diante de si um caminho iluminado fracamente por velas. Não havia chão, mas havia uma trilha de velas flutuantes que o convidavam a seguir adiante. E ele assim o fez.
Seguiu as velas por um corredor de puro nigredo. Não enxergava o fim mas, até onde sua visão alcançava, via velas acesas. Caminhou assim, pacientemente, por uma pequena eternidade em sua percepção subjetiva. A cada passo que dava, sentia uma estática, uma interferência pulsante em cada nanotech que o compunha. E essa estática, essa estranha pulsação rítmica aumentava como uma espécie de ansiedade semiótica. Era como se cada partícula transmodal estivesse aguardando por um novo fluxo de informações. Algo ulterior, que transcendesse todas as formas de semiose produzidas pelas informações cumulativas humanas.
Continuou a caminhada, e quanto mais seguia mais percebia um ritmo tomando conta do ambiente. Não podia denominar aquilo música, pois não havia som. Sentia, sim, uma vibração, uma freqüência de presenças e ausências que compunham algo que, quanto mais se aproximava do epicentro, mais se assemelhava a um ditirambo dionisíaco. O que poderia ser aquilo não sabia dizer. Não ousava questionar, mesmo porque não havia cruzamento de dados possíveis para interpretar o devir. Ainda assim prosseguia pela trilha. Seja o que for que lá havia, tinha de se manifestar. Tinha de se tornar fenômeno para poder se fazer notar. E, para tanto, assumiu as formas que eram passíveis de compreensão humana, mesmo uma forma humana já evoluída para um ser tecnorgânico.
Zero observou o nigredo assumir contornos, em movimentos de sombras voluptuosas que, em um enlace libidinoso, principiou por formar um ambiente afrodisíaco. A escuridão permanecia, sufocante e opressiva. Mesmo as velas eram negras e sua fraca luz era de um tipo de luz escura e avermelhada. O vermelho irromperia levemente no negro, determinando o tom de todo um obscuro salão no qual desembocaria sua caminhada. As velas se multiplicaram. Via-as não apenas no suposto chão, mas também flutuavam por todos os cantos, alturas e ângulos improváveis. O ditirambo ganhou som. E que som! Flautas insanas ecoavam juntamente a tambores e percussão. Sons que remetiam à perdição, saltérios desafinados, cuja dissonância realçava o aspecto de delírio de tudo aquilo. Sentia os nanotechs pulsarem desordenados, ao se depararem com a total ausência de lógica. Olhava para os cantos entre as velas, na escuridão, e ora parecia distinguir linhas que não podiam ser de programação humana. Elas se desenvolveram naturalmente ali, no núcleo do Abismo.
Subitamente, se deteve em um ponto. Havia uma sombra em um certo lugar de todo aquele estranho templo, um corpo que se movia. Sim, um corpo! Não distinguia bem as feições, mas percebia que ele se movia no estranho delírio rítmico do ambiente. Logo, uma luminescência vermelha, de flamas evanescentes iluminava a figura. Uma mulher se mostrou para ele. Não parecia vê-lo. Estava dançando em êxtase febril. Vestia uma saia lilás que deixava as pernas à mostra. Seu ventre indicava que estava grávida. Seus seios fartos, desnudos, arfavam insinuantes ao som do ditirambo. Seus cabelos soltos, avermelhados, se agitavam, flutuavam sob efeito de movimentos de dança que nunca cessavam. Seus lábios carnudos sorriam eroticamente para um amante invisível que parecia estar em todos os lugares. E seus olhos flamejantes pareciam segui-lo loucamente enquanto dançava.
Zero olhava para a mulher contidamente. Cada nanotech que agora compunha sua consciência, seu wetware, buscava exaustivamente catalogar aquela singularidade. Não era um programa. Não havia artificialidade nela. Não havia lógica nem preditibilidade em seus movimentos. Os nanos buscavam determinar os padrões de sua dança, mas eram surpreendidos por novos movimentos, movimentos nunca antes vistos, combinações jamais realizadas. Sua dança, sua existência, toda ela, era puro improviso, pura singularidade. Não existia ali padrão, nem repetição.
Não poderia sair dali. Sua curiosidade, e a incansável busca dos nanotechs por determinação de padrões, os prendiam àquele corpo indomável, que era, em toda a acepção da palavra, pura liberdade. Estava diante dele uma pura realidade, uma pura novidade, um sagrado acaso, que desafiava toda a existência determinista da hypernet. No seio da pura programação, da pura causalidade, havia o total incondicionado. Havia o Não, havia o Nada, o Nenhum.
“Venha, meu amado! Eu estava te esperando. Venha dançar comigo a mais velha dança. A mais antiga dança do cosmo, ao som do seu mais velho som” – a mulher disse para Zero. Sua voz era aterradora em sua sensualidade. Sentiu as pernas amolecerem enquanto um fluxo de cegueira o tomou.
“A-histórico! A-histórico” – ouviu em sua mente a voz incessante dos nanotechs – “Um fluxo de a-historicidade percorre toda nossa existência. É a ausência de causalidade, a falta de encadeamento entre os momentos que causa isso. Quem é ela?”
Como que ouvindo a indagação dos nanotechs, a mulher respondeu: “Eu sou a Imperatriz. Meu nome é Devir. Sou sacerdotisa e prostituta. Sou grávida do futuro. Grávida de Dionísio, o senhor desses ditirambos. Você é Dionísio. E você também deve me dar um filho. Deve ser um filho. Venha a mim em volúpia. Venha comigo para o além insondável. Venha beijar meus seios e tocar minha pele. Venha arranhar sua pele fina de Lei em minha carne grossa de Acaso. Penetre minha vulva, entre com seu cetro em minha taça. Eu sou um portal, e trago a transformação. Venha se transrealizar em minha carne, repleta de lascívia, luxúria e libertação”.
Havia uma atração irresistível. Assim como seu destino o atraíra inevitavelmente para os nanotechs como um complemento à sua existência, agora o novo composto tecnorgânico que era ele e os nanotechs se sentiam estruturalmente, onticamente e ontologicamente a se unirem alquimicamente a essa mulher escarlate. Não havia como resistir, e tampouco havia o desejo de fazê-lo. Ao contrário, os nanotechs concluíram que se unir ao homem, ao fundir o carbono orgânico com o silício inorgânico, estavam cumprindo uma etapa evolutiva do cosmo. Agora, sentia que unir esse novo composto à Devir, ao acaso, estavam cumprindo outra etapa.   
Ela se aproximou de seu avatar e tocou seu ombro com o braço esquerdo esticado. Eletricidade foi provocada. Cada elétron se agitou em um fluxo de êxtase. Sabia naquele momento que, embora ele fosse um avatar, ela não o era. E, onde ela o tocava, ele também deixava de sê-lo. Seu toque o transmutava. Mesmo na forma de pacotes de bits, ele ainda era uma forma midiática. Sua forma física emulada na rede era ainda uma mediação. Mas o toque da mulher o transmutava.
Ela o puxou para si e, antes que seus lábios se tocassem, sentiu o ventre dela tocar o seu. Sentia a imensidade de possíveis pulsando em seu interior, ávidos para serem paridos. Estava grávida de sonhos, e dançava ao som de delírios. Quando se beijaram, sentiu a língua dela invadir seu interior. Uma língua que penetrou por toda sua boca, levando êxtase e desejo, e insuflando-o de uma saliva que causava curto-circuito em toda sua integração. Antimatéria. Anti-ser. Não-Ser. Ela era do Abismo, e era feita de antimatéria. Enquanto a beijava, ela o tocou e o afagou. Afastando-se levemente, disse:
“Sinto o poder do acaso dionisíaco, a beleza orgiástica de Pangenetor surgir em você. Venha, sugue meus seios, e seja insuflado da loucura”
Zero tocou os seios da mulher. Grandes pela gravidez, envolveu com seus lábios os mamilos intumescidos de prazer e os sugou. Ouviu um gemido frenético da mulher escarlate, ao mesmo tempo em que sua garganta recebeu o leite que jorrou aos montes de seu seio: sangue, vinho, metal. Não sabia dizer. Era todas as coisas e nenhuma delas, e o conduziu a um estado de delírio. Sentiu-se como quando inseriu os nanotechs em seu corpo, mas agora era um jorro de átomos invertidos. Elétrons no centro e prótons girando loucamente, tocando seus átomos transmodais, alterando-os, transformando-o em algo...
Imagens saltavam em sua mente. Olhou para a mulher de cabelos vermelhos e cintilantes como sangue. Via atrás dela outras imagens. Homens de uma era distante, quando as palavras não existiam. Dois deles, diferentes, com olhos indagadores, contemplando águas sombrias, e mergulhando em símbolos traçados com sangue no chão agreste. Em uma era sem Logos, somente os grifos simbólicos podiam ser usados para chegar ao Ponto Cego. Eles caem no Abismo e hoje são Ela. Um Faraó jovem e sua irmã menina, deitados em sarcófagos abertos, de mãos dadas, em uma prece ancestral, clamam por Tífon e seu amado filho Set, contemplando, com olhar vítreo, o topo da Pirâmide se abrir para o céu escuro. As estrelas de Órion alinhadas, e logo um túnel celeste, um “buraco de minhoca cósmica” traga os dois, em wetwares arcanos, de encontro ao Abismo dos Céus, e aos Braços Dela. Duas mulheres, irmãs da Ilha de Lezbos, pálidas diante da Grande Caverna. “Equidna, Equidna. Sagrada e Pavorosa Mãe, abra seus portões”, são as vozes em uníssono, em um canto grego de bela e dissonante desarmonia. Elas se beijam e  mergulham Nela. Um dirigível em chamas. Uma obra do Acaso, uma obra Dela. Poderosas e baixas freqüências de eletricidade, tão baixas que tocam o Abismo, e duas irmãs, em uma queda em Chamas Magnéticas, olham para ele em desespero. “Illiana, olhe aquilo. Estou ficando louca?”, dizia a mais jovem para a outra, que estava caída diante dos controles do dirigível. “Também estou vendo, Ivich. Um homem e uma mulher. Mas são tão... sagrados.” A Mulher em seus braços sorria para as duas. E viu a si mesmo sorrir também. Ele era parte da Mulher. “Venham” – Ela disse – “Vocês já são Nós”. E viu as duas atravessarem o Abismo, e amarem a Ela. As imagens e percepções começaram a se suceder rapidamente. Percebeu, então, que não eram imagens, mas realidades além do tempo e do espaço, todas ocorrendo perpetuamente ao mesmo tempo. Todos Nela, absorvidos por Ela, incluindo ele.
 Os gritos da mulher se somavam aos tambores, aos cantos loucos e a seus próprios gritos, enquanto sua coluna doía. Sentia como se uma extensão, um apêndice de sua coluna, se projetasse cada vez mais febril, como os guizos de uma serpente, guizos que penetravam uma colméia encharcada de mel. A mulher dançava, e ria, e gritava. Ela o cavalgava como a um animal selvagem, cravava suas unhas em sua carne e o rasgava. Ele gritava e a serpente penetrava com mais força a colméia. E ela o puxava ainda mais. Sua visão estava nublada por mil prismas de realidade.  Uma transmutação se alterava. Um Casamento Químico acontecia. A eletricidade circulava por seu corpo. Íons berravam em atritos insanos com elétrons. Átomos de silício se fundiam com carbono. Ambos vibravam enquanto a prostituta abria mais as pernas para receber a essência do futuro. Enquanto o impregnava com sua anti-vida.
Ouviu um berro! Era o êxtase Supremo. Sentiu a si mesmo sair de si. Ainda olhou, extático, a mulher dançando e chupando a cauda de uma gigantesca serpente que, em transe, cantava um ditirambo:
Oh, amada Imperatriz de minha alma, que
Meu corpo inflama em chama insana!
Que desejo me toma a mente
A ânsia de possuir teu corpo com volúpia ardente!
Quero contigo queimar, teus seios sugar,
Com fúria penetrar tua rosa profana
E contigo morrer mil vezes
A morte do gozo sagrado
E evanescente!

Ele era a Serpente. E já não estava na rede. Não havia mais hypernet. E havia. Olhou para trás de si, e viu um fino ponto de luz. Olhou para todo o redor, e via o universo. E o universo era a Rede. E a Rede o Universo. E não havia separação. Então, em um adeus à luz, disse: “Há estrelas aqui! Eu sou um com Devir!”.