sábado, 5 de março de 2011

Ponto Cego - Parte 3

Parte 3 
“Isso é muito proficiente, Zero” , “Não se preocupe. O processo é indolor. Estamos absorvendo cada átomo de seu cérebro, Zero, e tornando-os independentes de sua carne”, “Corpo sem Órgãos, Zero, esse é o caminho. Esse é o novo hiperrealismo da evolução humana”.
Essas e muitas outras vozes, todas simultâneas ecoavam por todos os lados, eram onipresentes em sua existência, enquanto ele se sentia ser descolado de seu corpo. Era uma mentira terrível o que haviam dito sobre a dor. Ele sentia dor, sim. E era insuportável. Cada fragmento de “eu” era subsumido, enquanto seus átomos fundamentais, que, em seu conjunto, continham tudo o que ele era, se fundiam a nanotechs. Naqueles momentos eternos, cada átomo seu tornou-se apenas metade de uma fórmula, cuja outra metade era um nanotech que se fundia violentamente.
Enquanto isso, Zed aplicava uma injeção de adrenalina para compensar uma forte oscilação cardíaca. O choque poderia fazer o coração explodir. Na mesma medida em que os nanotechs se unificavam com os átomos de Zero, os mesmo eram transferidos para a Hypernet, se alojando em um avatar criado como um arquivo da rede. “Deus” – Zed, leu a inscrição que apareceu na tela – “A dor é terrível! Vou enlouquecer! Vou enlouquecer!”. Não havia nada a fazer. Da parte de Zed, tudo o que poderia ser feito seria estabilizar o corpo de seu irmão e tentar manter sua integridade.
Zero sentia sua consciência dividida. Não pensou que isso fosse acontecer. Acreditava que a transferência de seu ego digital fosse feita instantaneamente, e não do modo como foi feita. Estava sendo enviado para a rede em partes. Sentia cada cisão provocada pelos nanos, sentia-se violado em cada partícula de seu ser. E as vozes não paravam: “Aguarde, Zero! A configuração humana é surpreendente. Sua consciência não existe em um ponto conhecido de seu cérebro, ela encontra-se fragmentada, espalhada por todo seu corpo. Mas não se preocupe. A cada instante nós destacamos mais e mais de seu ‘eu’ do seu corpo. Seu wetware está sendo construído. Logo você poderá caminhar pela rede. A dor é libertação. Libertação de seu corpo. Mas não poderemos, ainda, separá-lo totalmente de seu corpo, Zero. Estamos extraindo as energias necessárias para a inicialização do construto digital. Corpo sem Órgãos, Zero. Corpo perfeito, eternamente belo e perfeito”.
Apesar da dor insuportável, os nanotechs cumpriram o prometido. Após uma pequena eternidade, Zero percebeu-se como um construto na rede. Olhava para adiante de si, e via uma infinidade de prédios, enormes construtos que se erigiam e altitudes inimagináveis, construtos de dados. Acima de si via um céu vermelho, com miríades de formas geométricas perfeitas, em permanente estado de trânsito. Dados móveis, trafegando entre modems e provedores de acesso.
Mas ainda sentia seu corpo. E ainda sentia dor, mas era menos do que antes. E diminuía cada vez que recebia novo pacote de dados em sua integração. Resolveu mandar nova mensagem para o irmão, tranqüilizando-o.
***
“Zed! Estou bem” – foi a mensagem que apareceu na tela. Zed estava suando por todos os poros. Lutava para manter o irmão vivo. Por uns instantes, o coração de Zero havia parado. Estava tentando mantê-lo vivo quando recebeu a primeira mensagem, que em nada o tranqüilizou. Pensou na tolice de tudo aquilo, e de como tudo dera errado. Era óbvio que daria errado. Tudo o que tinham nãos mãos era uma teoria. E a probabilidade de uma série de coisas acontecerem de modo imprevisto eram imensas. Não acreditava em sua idiotice em aceitar trabalhar com seu irmão nessa empreitada. E agora Zero poderia morrer em suas mãos.
Porém, depois de todos esses angustiados momentos, os sinais de Zero se estabilizaram, e logo surgiria a mensagem de Zero dizendo que estava bem.
“Zero, você pode me ouvir pelo microfone? “ – perguntou, olhando para o monitor, esperando a resposta surgir na tela. Surpreendeu-se ao ouvir uma voz chiada e digitalizada soar pelos auto-falantes: “Sim, Zed. Já identifiquei o IP de minha rede de computadores e regulei a comunicação. Poderemos conversar a partir daqui. É maravilhoso, Zed! Maravilhoso. Mas eu preciso de ajuda. Existem colunas gigantescas de dados aqui. Todos se erguem como edifícios monumentais. Não pensei que meu avatar digital seria tão pequeno no interior da rede. Sinto-me uma formiga em meio a um fluxo tão gigantesco de informações”.
“Minha nossa, Zero! Por Santa Sara! Não posso acreditar nisso. Deu certo! Deu certo! O que faremos agora? Se tudo é tão imenso, como você vai chegar até o ponto cego?” – disse Zed, em um misto de assombro e excitação.
“Calma, Zed! Agora você deve ir até o quarto dos terminais. Lá, você poderá identificar onde eu me encontro em relação ao ponto cego. Segundo minhas orientações, os nanotechs deveriam me colocar a uma distância segura do ponto de atração do ponto cego, mas não muito longe dele. Só preciso das coordenadas”.
Zed foi até o quarto e logo identificou o irmão como um pequeno ponto vermelho na tela. Um pequeno ponto em uma imensidão de pontos verdes. Uma torrente de dados se avolumava ao redor daquele ponto negro. E, na periferia de tudo aquilo, estava aquele pequeno ponto vermelho, que era seu irmão. Pouco a pouco ele foi passando coordenadas, instruindo por caminhos e rotas de tráfego. Mesmo assim, a travessia de Zero tomaria horas para que este se aproximasse do limiar da Rede.
***
Recebera as coordenadas do irmão, mas onde ele estava? Como se locomover? Olhou para si mesmo. Não era de carne e osso. Nem poderia. Estava em seu wetware, seu corpo líquido. Tocava em si mesmo e sentia-se molhado, prateado e cristalino. A dor que sentia era ainda a dor da separação. Mas conseguia identificar essa dor essencial de sua condição existencial, agora perfeita e impressionante. Logo percebeu que o conceito de solidez aqui não se aplicaria a ele. Os dados eram sólidos, as informações eram sólidas. Toda a existência aqui era fria e de perfeição matemática. Mas ele era algo diferente. Havia se tornado um ser tecnorgânico. Não era apenas uma imagem virtual. Não era apenas um pacote de dados. Seus átomos estavam ali, mesclados irremediavelmente aos nanotechs. Ele estava realmente ali. Não era uma projeção. Assim, percebeu também que sua própria consciência começava a mudar na medida em que adquiria consciência do quê havia se tornado. Percebeu que caminhar era um conceito que necessitaria ser revisto aqui. “Pois os sólidos são apenas ilusões. Tudo aqui está em fluxo. Inclusive nós” – ouvia os nanotechs, mas já os ouvia como seus próprios pensamentos. “Apenas se lance na direção indicada. E lá seu wetware estará”. E assim o fez. E se lançou na primeira torrente de dados. Sentiu-se mover vertiginosamente a uma velocidade inconcebível. Viu todas as coisas como mero borrão. Viu os edifícios e os objetos tridimensionais, outrora tão sólidos, desfazerem-se e liquefazerem-se diante de seus olhos. Só então compreendeu. Não há sólidos, é tudo uma questão de perspectiva.
Todavia, algo o incomodava. Quanto mais se dirigia para as regiões indicadas por seu irmão, mais se sentia fraco, instável. “Energia” – diziam os nanos – “É necessário reunir mais átomos. A velocidade, o deslocamento contínuo cria um paradoxo com seu corpo físico. É necessário reunir todas as partes de sua consciência, para que não nos dissipemos!”. E assim, sentia novo fluxo de dados, o que o fortalecia para prosseguir.
***
Acompanhava atenciosamente toda a trajetória de Zero. O pequeno ponto vermelho se movia rapidamente pela densa massa esverdeada que se avolumava nos monitores. Mas estava preocupado. A princípio, Zero esboçava um senso de direção e objetividade mais claros. Agora ele parecia estranhamente disperso e cansado. Mas estava quase chegando ao ponto cego.
“Zero, está tudo bem? Você está seguindo bem a orientação. Está no quadrante certo. Dentro de dez minutos você estará no raio de reentrância do ponto cego. Não quer parar um pouco pra descansar? Você parece cansado” – tentava assim fazer com que o irmão conversasse.
“Não posso, Zed. Agora preciso intensificar minha velocidade para entrar no ponto cego. Eu já descobri, Zed. Há uma película, uma camada que não deixa o ponto cego se expandir. Mas eu preciso acelerar, Zed. Preciso. Evolução, Zed. Esse é o próximo passo. Mundo real e virtual vão se fundir, eu acho. Ou já estão fundidos? Seriam uma coisa só? Talvez, não é, Zed?”
Era muito preocupante o modo como a voz de Zero estava ecoando naquele recinto. Mais do que isso, era assustador. Resolveu que não deixaria o irmão ir adiante. Mas ele já estava quase chegando ao ponto de atração, o ponto de desvio no qual as informações que ali entrassem, acabariam por desaparecer no núcleo negro.
“Zero! Escute, cara. Você está viajando. Agora não é hora de especulações metafísicas, irmão. Pare onde está, volte um pouco. Você não pode prosseguir assim”. Todavia, tudo o que ouviu foi um chiado. Depois começou a ouvir murmúrios. Seu irmão balbuciava coisas ininteligíveis. Olhou para a tela e viu que o ponto vermelho estava se movendo muito rápido. Pegou o microfone e gritou: “Zero! Pare agora!”. Mas, em contrapartida, ele apenas ouviu, em uma voz metálica, fria: “Energia! É preciso mais energia. Mais consciência”.
Antes que pudesse fazer qualquer coisa, começou a sentir um cheiro forte que vinha da câmara ao lado. Saiu correndo do quarto e, ao chegar à sala, conteve um grito aterrador diante do que viu. O corpo de Zero estava cheio de bolhas, que cresciam e estouravam em seguida. Sua pele estava vermelha demais, com fortíssimas queimaduras. Tentou tocar o irmão, mas tamanha era a temperatura que queimou a mão com o líquido das bolhas.
“Zero! Puta que o pariu! Zero, você está queimando, cara. Volta, volta!” – berrava Zed no microfone. Mas tudo o que ouvia era: “Mais energia, mais átomos, integridade!”.
Olhou para Zero quando um grosso fio de fumaça começou a sair de sua carne, junto com um forte cheiro de carne queimada. Não houve mais o que fazer. O corpo explodiu em chamas. Labaredas incendiaram todo o corpo de Zero, enquanto Zed procurava um extintor para apagar as chamas. Gritando o nome do irmão, entre lágrimas, Zed apagou as chamas com as borrifadas do extintor de incêndios, mas tudo o que restou foi um corpo, negro e carbonizado, colado a uma cadeira igualmente torrada. Cheiro de carne queimada enchia as narinas de Zed que, sem forças, entre choro e nojo, caiu sentado, em choque, ao lado da cadeira. Ficou nesse estado por muito tempo, sem saber ao certo o que fazer, sem entender ainda o absurdo da situação. Só depois de um longo período um pequeno ruído de mensagem começou a chegar a seus ouvidos. Há quanto tempo ela estava ali não sabia dizer. No quarto ao lado, todos os monitores transmitiam uma única mensagem. Uma frase deixada por seu irmão. Ao lê-la, Zed soube que Zero estava vivo, que ele havia penetrado o ponto cego. Mas, o que poderia significar aquelas palavras? Naquele quarto, um homem infinitamente solitário, era banhado por luzes verdes que revelavam um mistério. Em cada monitor, a frase: “Há estrelas aqui! Eu sou Um com Devir!”
***