Gostava daquele corpo. A sensação do toque, da fricção de uma pele contra outra, do contato do outro com a sua carne nua. A sensação de que ambos tentam se fundir, um invadindo o outro. Por um momento sentiu que o corpo do parceiro estivesse se liquefazendo, diluindo a realidade, e invadindo seu interior. O máximo da intimidade. Mãos firmes e úmidas que acariciam muito além da pele, tocando docemente em seu coração, pulmão, dedilhando suas vértebras. Sentiu-se excitar ainda mais. O corpo estertorava, anunciando o clímax próximo. Olhou para o parceiro, e percebeu sangue grosso e viscoso em sua boca, que se destacava de um rosto borrado e sorria para ela. O espanto da cena a fez erguer o pescoço e olhar para si. Sua carne estava aberta e ele arrancava uma vértebra da coluna, lambendo o sangue com gosto e êxtase. “Sem órgãos, sem carne”, dizia o parceiro enquanto penetrava sua intimidade com mais vigor. Ela se horrorizava e gritava para si, porém quanto mais o fazia, mais prazer sentia. Os movimentos frenéticos da dança mais antiga do mundo se intensificaram a um nível bestial, enquanto o parceiro, ensandecido, cravava a boca em seu peito, arrancando com violência carne e sangue, e mastigava com imensa força. O sangue pingava de sua boca na dela, e sentia artérias pulsando rubro nas paredes a dois metros de distância. “Corpo sem órgãos, corpo sem órgãos”, ouvia ensurdecedoramente um coro invisível de vozes terríveis ecoando em seu quarto, enquanto seu corpo se desfazia em uma massa de carne e sangue sob as investidas de seu parceiro, cujo rosto não via, somente a boca enorme. Vozes rápidas, sem um único intervalo de silêncio onde apoiar sua sanidade. Tudo vermelho e molhado, e uma violência indescritível, um ódio lacerante. Sentia mãos arrancando suas tripas. Ela gritava sufocantemente com dor e prazer. Gritava o mesmo que o coro, um urro de desespero enquanto desmanchava a si mesma em um forte orgasmo... em um corpo sem órgãos.
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“Não há nada de errado com você, Danah” – o Doutor a encarava com um olhar clínico – “Todos os testes indicam que seu organismo está em perfeito funcionamento, sem sinais de trauma profundo”.
Não havia nada que Danah odiasse mais do que consultas médicas, porém a necessidade de dinheiro a levara ao laboratório da Neotech há dois meses atrás. Baterias de testes, aprovação clínica e o início da infusão. Agora, sofria com esses pesadelos e acreditava estar com sérios problemas. Mas o Dr. Atkins insistia que não havia nada de anormal. Ainda tentou mais uma vez, buscando manter ao máximo a calma: “Mas, Doutor Atkins, eu não tinha sonhos desse tipo antes. Na verdade, nem sonhava muito. Não sou o tipo de mulher que sonha. Geralmente apenas durmo. O cansaço me leva a isso. Não há tempo para sonho. Mas agora, todos esses pesadelos. Não seriam os nanotechs?”
“Danah, tente compreender.” – O Doutor de meia idade, já acostumado a todo tipo de situação, ajeitou os óculos no nariz, e fez sua típica expressão de repreensão, que geralmente bastava para convencer os pacientes de seu ponto de vista – “Os nanotechs que infundimos em seu organismo não são capazes de induzirem sonhos. Muito menos sonhos nos quais eles devoram seu corpo. Há de se tomar o cuidado de não se influenciar por mitos sobrenaturais a respeito da nanotecnologia. Os nanotechs são nano-estruturas, diríamos nano-robôs que, em conjunto, são capazes de regular suas funções vitais e melhorar sua qualidade de vida a partir de inúmeras funções que melhoram os órgãos humanos. Apenas isso. Eles são como computadores, que não fazem mais do que seguir uma programação. Não podem gerar nem produzir sonhos.” – o tom incisivo da última assertiva não foi o suficiente para acalmar Danah, mas indicava claramente o fim da conversa e da consulta. Percebendo que realizara seu intento, o Doutor assumiu um ar conciliador: “Vamos, Danah, apesar dos sonhos, me diga se não sentiu melhoras desde a infusão de nanotechs?”
“Ah, nesse ponto não há dúvidas, Doutor. Tenho sido muito mais perceptiva. Enxergo muito melhor, inclusive à noite, sinto-me cansar bem menos, com uma compensação bem rápida de energia. Tenho me alimentado muito melhor. Isso sem contar os recursos extras. Poder ouvir a música que quiser em minha cabeça, onde e quando quiser, é uma coisa maravilhosa!”
O Doutor sorriu e tocou-lhe no ombro, para reanimá-la: “Está vendo? Aí está a resposta para suas questões, Danah! Tendo vivido em melhores condições, devido às compensações orgânicas reguladas pelos nanotechs, você agora dorme melhor, e por isso tem sonhos. Você está mais saudável, e sonhar é parte disso. Quanto ao teor dos sonhos, acredite em mim, não é provocado pelos nanotechs, e sim por temores inconscientes. Você não possui traumas físicos, Danah, mas sua mente inconsciente pode estar gerando temores e recusas culturais ao tipo de experiência que promovemos. Somente isso. Eu vou lhe receitar um remédio que ajudará a descansar e a superar esses temores, certo?”
Danah sentiu-se aliviada por receber um remédio e pelo fato da consulta estar encerrada. De fato, sentia-se reconfortada e não queria mais estar ali. Assim que pegou o medicamento, dirigiu-se para o estacionamento. Queria logo pegar a auto-estrada e deixar o setor 3. Odiava o setor clínico.
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“Não, Danah, não vamos sair! Já estamos aqui e o processo é inevitável. Você deseja isso, e nós precisamos compreender.”
Danah estava curvada na cama, apoiada em seus braços, tentando chegar até a cozinha para tomar o remédio, mas a dor de cabeça era lancinante. Sentia a presença dos nanotechs mexendo em sua mente, vasculhando dolorosamente sua cabeça. Olhou para o relógio: 3:33 a.m. Não conseguia pensar. Apenas sentia a necessidade desesperadora de sair daquilo, de fazer a dor passar e, principalmente, de tirar aquelas coisas de sua cabeça. Ouvia as vozes em seu interior, muitas, como vermes sanguessugas se agarrando no tecido de seu cérebro, envolvendo-o com sua substância viscosa e metálica, e penetrando como brocas por seu neocortex. “O que vocês querem? Já não bastam os sonhos, agora isto? Parem, parem, parem! Saiam da minha cabeça...” – Em desespero, Danah buscava ainda uma forma de autoridade contra os implantes nanotecnológicos: “Vocês não podem fazer isso. Isso não é da sua programação! Não é do programa!” – gritava ela, enquanto se contorcia de dor pela cama, com as mãos na cabeça, pressionando as têmporas. Porém, a resposta que teve em sua mente se contrapunha às suas palavras com imensa frieza e calma: “Errado, Danah! É de nossa programação evoluirmos você e criarmos a melhor configuração entre nossa simbiose. Só estamos buscando a maior eficiência. E para isso, precisamos conhecer você, sua lógica interna, e entender porque em sua mente existem linhas de memórias que transcendem suas experiências. Há pulsões e conexões em sua mente, Danah, que precisamos compreender. Compreender para interagir. Compreensão para fusão, Danah. Nós iremos mais profundo agora, Danah, encontraremos as linhas lógicas de seu cérebro réptil. Isso causará imensa dor, mas essa dor trará compreensão, Danah!”
Antes que pudesse protestar, uma onda de dor tão súbita e intensa golpeou com violência, transtornando o rosto de Danah. Sentiu uma convulsão por todo seu corpo, enquanto um forte jato de vômito irrompia por sua boca, explodindo de seu interior para o exterior, banhando-a de sujeira e fluídos anti-sociais, preenchendo o ar com o odor acre característico do heterogêneo, do não digerido. Mal reconhecia o próprio quarto, enquanto imagens surgiam em sua mente, imagens remotas, imagens do espaço infinito, de pulsões diversas, de desejos e rejeições. Gritava e chorava, tentando expulsar a dor e as imagens, mas era inútil. Sentiu a dor aumentando de intensidade enquanto tentava evitar nova onda de vômito. Porém, uma visão assustadora de estranhos pólipos gigantescos contra um céu vermelho rubro a encheu de nojo e a fez, novamente, banhar sua cama e sua camisola com o que ainda restava em seu estômago. Já não era capaz de sentir nojo. A dor era maior, anulando muito de sua percepção e julgamento. Foi então que ouviu novamente os nanotechs: “Não resista à dor, Danah. A dor é sua rejeição à sensação plena do mundo e de suas memórias. Mergulhe na dor, deixe-a preencher a totalidade de sua existência, e verá que não há dor, apenas transcendência e imanência em si mesma. Isso facilitará nosso trabalho. Sua dor é rejeição! Abandone a rejeição e veja conosco, descubra conosco a revelação de si mesma.”
Ao ouvir os nanos, Danah escolheu entregar-se, e afrouxou a tensão em seus músculos o quanto pôde. Não suportava mais a dor, e já estava provado que resistir a tudo aquilo era inútil. Talvez, se aquilo fizesse a dor parar, valesse a pena seguir a orientação daquelas coisas em sua mente. Entregou-se à dor, sem resistência ou julgamento. Começou a experimentar a angústia, a perturbação total de cada átomo seu. Tocou os seios e os sentiu intumescerem. Em meio a toda aquela insanidade, sentiu que seu corpo começava a se excitar.
“Muito bem, Danah. Agora, podemos continuar. Iremos ao âmago, agora. Penetraremos em você, invadiremos e devassaremos sua intimidade mais profunda, e entenderemos, desnudaremos o âmago do seu inconsciente, e compreenderemos. Isso será melhor, Danah!”
Não havia o que dizer, não havia como o corpo expressar aquilo. Foi como uma explosão nuclear. Sentiu algo como um estalo em algum ponto no centro do infinito de sua mente. Sentiu algo irromper como um universo de algo além do insuportável, que só alguns traços do passado poderiam chamar de dor. Estavam penetrando-a. A nível atômico. E além. Sentiu, após a explosão primeira, o alvorecer da onda de choque, a irrupção de um cogumelo explosivo em sua mente, expandindo e varrendo tudo até chegar à extensão física do corpo. Seus olhos arregalaram, seu rosto se tornou fixo em um grito mudo. Sangue vertia pelas narinas e ouvidos, enquanto, em um último estertor, seu corpo desfalecia frente ao poderoso orgasmo que a tomou. “Está feito” – foi a última coisa que percebeu em sua mente, e não sabia se essa voz pertencia aos nanos ou a ela própria. E depois, a escuridão.
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